Pelo menos cinco cidades estão enfrentando a disseminação de “listas de petistas” e monitoramento do assédio a trabalhadores em empresas.
Após as eleições presidenciais no dia 25 de outubro, o Espírito Santo, assim como diversas outras localidades do Brasil, tem sido palco de uma crescente perseguição a empreendedores e funcionários que demonstraram apoio – ou que se presume que tenham apoiado – o presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Listas de boicote a estabelecimentos e profissionais alinhados à esquerda têm se espalhado por várias cidades, lembrando casos semelhantes ocorridos em 2022, além de relatos de assédio eleitoral dentro de empresas.
Relatos indicam que pelo menos cinco cidades do estado estão adotando essa prática: Afonso Cláudio (na região serrana); Cachoeiro de Itapemirim (sul do Estado); Guaçuí (Caparaó); Guarapari e Vitória (região metropolitana). O fenômeno parece estar enraizado em grupos de extrema direita distribuídos por diferentes lugares. Tal atitude remete aos boicotes realizados por nazistas contra judeus na Alemanha durante o início do século XX.
Em Guaçuí, a hamburgueria Maju Roll Burguer foi um dos estabelecimentos alvo dessa “lista de lojas de esquerda”. No dia 25, seu proprietário, Julio Curty, expressou sua indignação nas redes sociais, afirmando que enfrentaram situações semelhantes em 2022, mas que agora a situação era mais grave. “Esta lista é covarde e criminosa”, declarou Julio em contato.
Ele destacou que, embora seja discreto quanto a suas preferências políticas e atenda clientes de todas as ideologias, ainda foi alvo de ataques. Apesar disso, recebeu apoio de mensagens de diversas pessoas, independentemente de suas posturas políticas.
A OAB-ES (Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Espírito Santo) divulgou uma nota em suas redes sociais criticando a lista que circula em Guaçuí. No comunicado, enfatiza que a democracia exige respeito à diversidade de ideias, liberdade de consciência e o direito de cada cidadão exercer suas convicções políticas sem sofrer constrangimento ou represálias por suas escolhas.
Em Vitória, Luis Guidoni, um dos proprietários da marca de roupas Amabilis, gravou um vídeo lamentando sua inclusão na lista, rejeitando qualquer associação com políticas partidárias. “Estão tentando nos rotular como comunistas. Temos um negócio, o que não faz sentido em relação a essa acusação”, disse.
Em Cachoeiro de Itapemirim, estabelecimentos como a Catedral de São Pedro e a Rádio Diocesana, vinculada à Igreja Católica, também foram alvos da lista. Dom Luiz Fernando Lisboa, arcebispo da diocese local, foi um dos signatários de uma carta de bispos contrários à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
O advogado Lucas Neto, que também foi incluído em uma lista em Guarapari, afirmou que a criação e divulgação desses documentos constitui crime, pois visa causar danos intencionais a profissionais e estabelecimentos. Ele argumenta que isso pode ser classificado como crime contra a coletividade, similar a racismo e discriminação, além de possíveis infrações políticas e eleitorais. Segundo Neto, esse tipo de boicote pode ser considerado ameaça, conforme os artigos 147 e 147-A do Código Penal.
“Se alguém diz: ‘Vamos fazer essa mulher do Salão de Beleza falir e ela vai passar fome’. Isso, para mim, é um crime de ameaça, pois ameaça causar dano injusto e grave. Fazer com que alguém falhe e passe fome por uma escolha política é um mal injusto”, comentou.
Assédio no trabalho
O Sintrafarma, Sindicato dos Trabalhadores em Drogarias, Farmácias e Distribuidoras de Produtos Farmacêuticos e Hospitalares do Estado, está monitorando possíveis perseguições dentro do ambiente de trabalho.
Em nota à imprensa, divulgada recentemente, a entidade destacou dados do Ministério Público do Trabalho (MPT-ES), que registrou 47 denúncias de assédio eleitoral nas empresas em 2026, com informações até 27 de outubro. Essas denúncias incluem pressão durante a campanha e retaliações pós-eleitorais, como ameaças de demissão e rejeição de contratações. Desde 2020 até agora, o estado acumulou 163 denúncias, enquanto o total nacional chega a 2.364, sendo que aproximadamente 2% delas estão concentradas no Espírito Santo.
O Sintrafarma enfatizou que as empresas não podem demitir ou deixar de contratar alguém por questões políticas. Esse tipo de comportamento pode ser interpretado como discriminação e assédio no ambiente de trabalho, infringindo direitos fundamentais estabelecidos pela Constituição e pela legislação trabalhista, podendo resultar em punições para os responsáveis. No entanto, a entidade indicou não ter recebido queixas específicas de sua categoria, orientando quem necessitar a procurar o sindicato correspondente ou o MPT-ES, através de canais disponíveis.
Fotógrafo sob investigação do MPT
O fotógrafo Rafael Duarte, de Cachoeiro de Itapemirim, está sendo investigado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) devido a postagens feitas em suas redes sociais. Ele mesmo compartilhou a informação no Instagram, ironizando a rapidez da investigação, mas afirmou que já encaminhou a questão a seu advogado e que seguiria seus compromissos de trabalho.
Rafael, que é relativamente conhecido na região, fez uma postagem provocativa nos stories do Instagram, sugerindo que as pessoas demitissem seus empregados, barbeiros e auxiliar doméstica que seriam apoiadores do Partido dos Trabalhadores, alegando que o voto destas pessoas prejudicaria negócios e famílias. Posteriormente, ele divulgou prints de conversas de um grupo de apoio ao presidente Lula, que continham críticas à sua pessoa.
Por outro lado, o criador de conteúdo Bertony Fagundes fez uma postagem destacando uma lista de “estabelecimentos de direita” em Cachoeiro, conforme solicitado. Antes disso, ele havia negado ser o autor da controversa lista de “estabelecimentos petistas” que circula em grupos locais.

