Um banheiro compacto, equipado com cabines para chuveiro e privada, além de duas pias, é a primeira impressão de quem adentra um dos apartamentos dentro de um conjunto de seis prédios de quatro andares em Phnom Penh, a capital do Camboja. O espaço de 40 m² é ocupado por duas camas de casal, uma mesa de escritório e uma varanda estreita. À primeira vista, poderia parecer uma típica unidade residencial, não fossem as grades e o arame farpado que visam impedir fugas.
Este local faz parte de um complexo associado ao tráfico de pessoas, conforme afirma a ONG The Exodus Road Brasil. A entidade, que é uma extensão da organização americana homônima, alega que há vínculos com o PCC (Primeiro Comando da Capital) no país. Enquanto a ONG sustenta que a facção opera diretamente no Camboja, sobreviventes de tráfico humano indicam que o nome do grupo é empregado como uma tática de intimidação.
Esse complexo abriga inúmeras vítimas de tráfico humano de diferentes nacionalidades, sendo forçadas a perpetrar fraudes eletrônicas contra cidadãos de seus próprios países. A particularidade deste local reside nas ligações identificadas com a organização criminosa brasileira.
A Exodys Road conta com relatos de resgatados deste espaço, onde eram submetidos a trabalho forçado sob ameaças de tortura. Os testemunhos reunidos revelam uma rotina que os conectou a indivíduos ligados ao PCC, segundo Cintia Meirelles, diretora da operação brasileira da ONG. Ela destaca a necessidade de entender as redes transnacionais atuantes no tráfico humano, reconhecendo-o como um crime que opera de maneira integrada ao crime organizado.
Para combater essa problemática, Meirelles enfatiza a importância de explorar o modo de operação dessas organizações, tratando de interromper suas atividades antes que as vítimas sejam capturadas. Diante de questionamentos sobre o envolvimento do PCC em tais crimes, a Polícia Federal informou que não comenta ou confirma investigações em andamento.
Outras organizações que trabalham com direitos humanos também foram consultadas, mas afirmaram que monitorar essa conexão não faz parte de suas atribuições diárias, impossibilitando-as de validar ou refutar o envolvimento da facção. Empreiteiros que realizavam reformas nos prédios relataram à imprensa que diversas nacionalidades eram mantidas no local até que uma operação policial no início do ano encerrasse as atividades do complexo. Um deles mencionou ainda que o proprietário do local planeja convertê-lo em um condomínio residencial.
Os golpes aplicados por brasileiros na unidade tinham como objetivo extorquir dinheiro de vítimas através de telefonemas, mensagens e videoconferências, em que os golpistas se faziam passar por agentes de diferentes órgãos públicos, como as polícias Civil, Militar e Federal. Aqueles que eram aliciados recebiam promessas de altas remunerações, moradia, passagens aéreas e alimentação. Contudo, ao chegarem, eram privados de liberdade, levados a longas jornadas de trabalho e, frequentemente, submetidos a torturas caso não cumprissem as metas estipuladas.
Depoimentos de vítimas que foram levadas a outros países da região indicam que o PCC é frequentemente mencionado pelos gerentes das operações, que se apresentam como associados à facção e com poder para ordenar violências e assassinatos. Um dos sobreviventes, que pediu para não ser identificado, relatou que um gerente mostrou fotos ao lado de Marco Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola, líder do PCC, que está encarcerado desde 1999.
Outras vítimas confirmaram que o nome da facção era utilizado como forma de ameaçar. Um jovem de 25 anos que passou por diversos centros na região lembrou de situações em que foram feitas ameaças do tipo: “sabemos quem você é e de onde você vem, só precisamos fazer uma ligação para que seus familiares no Brasil sejam visitados por nossos ‘irmãos’.” Tal pressão psicológica era uma constante.
O mesmo local referido pela Exodus Road Brasil é catalogado como “complexo confirmado” em um relatório da Anistia Internacional sobre a indústria de fraudes no Camboja, que se apoiou em depoimentos de sobreviventes e visitas de pesquisadores. Ao ser questionada, a organização afirmou que a facção não era mencionada espontaneamente nos relatos das vítimas.
No documento, publicado em junho de 2025, a Anistia avalia que o complexo pode ter sido erguido com a intenção de privação de liberdade, sendo um dos seis entre os 53 identificados nessa condição. O arranjo da infraestrutura, com o objetivo explícito de impedir fugas, sustenta essa interpretação.
Com o crescimento da indústria de estelionatos no Sudeste Asiático durante a pandemia de coronavírus, a criminalidade no Brasil também teve um aumento significativo. Enquanto os golpes eletrônicos se expandiram com o fechamento de cassinos e fronteiras, as fraudes no Brasil cresceram em função da digitalização acelerada da economia.
A atuação do PCC nesse tipo de crime está sob investigação da Polícia Federal desde pelo menos 2023, quando diversas autoridades nacionais se uniram para identificar os “escritórios do crime”, estruturas dedicadas a fraudes por meio de aplicativos de mensagem e telefonema. Este conjunto de evidências aponta que o país enfrenta um problema de crime organizado, com uma economia criminal estruturada, financiada por facções e com capacidade de exploração do sistema financeiro.
Entre as fraudes identificadas pela polícia, está o chamado “golpe da Anatel”, onde criminosos ligam para insatisfeitos com serviços de telecomunicações buscando extrair informações sensíveis, similar às táticas reportadas no Camboja. Como parte de uma repressão global ao crime, a Polícia Federal participou em junho de uma operação internacional que desmantelou uma rede que levava vítimas ao Camboja, identificando 406 pessoas, sendo 83 brasileiras.
Apesar das investigações em andamento, membros da alta cúpula da Polícia Federal informaram que não há previsão para a abertura de um escritório de representação na região, o que poderia facilitar a interação com as autoridades locais.


