terça-feira, agosto 25, 2026
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Vida limitada a funerais e luta pela sobrevivência em La Guaira após os terremotos

Um outdoor na estrada litorânea da costa norte da Venezuela exibe uma imagem colossal de Nicolás Maduro sorrindo, acompanhada da frase “uma terra onde correm leite e mel”, uma expressão bíblica que evoca a ideia de um lugar ideal. No entanto, atrás desse anúncio, o cenário é desolador: montanhas de destroços, sacos de cadáveres e acampamentos improvisados para os milhares de venezuelanos que perderam suas casas após os severos terremotos em junho.

La Guaira, o estado mais afetado pelos tremores, era anteriormente uma vibrante localidade à beira-mar, mas agora está irreconhecível, com torres residenciais transformadas em pilhas de escombros. Com aproximadamente 24 mil pessoas desabrigadas e centenas de edifícios danificados ou destruídos, conforme relatado pelas autoridades, a costa tornou-se um vasto campo de refugiados, onde muitos se acomodam em barracas perto das ruínas.

A maravilhosa brisa do mar contrasta de forma inquietante com a incessante presença da morte, representada por corpos que continuam a ser resgatados dos escombros e os sacos mortuários que são transportados em caminhonetes. A situação é tão crítica que espaços antes dedicados ao comércio e lazer agora têm como única função abrigar os sobreviventes ou servir como locais de sepultamento.

O McDonald’s, um ponto tradicional de encontro entre locais e visitantes, passou a operar como um hospital de emergência. O porto da cidade virou um necrotério sobrecarregado, enquanto campos de golfe e resorts foram adaptados para receber desabrigados. Os acampamentos, repletos de lama e moscas, levantam questões prementes sobre o futuro dos desalojados e o que acontecerá na região, que já foi uma das mais importantes da Venezuela.

Este é o segundo grande desastre que La Guaira enfrenta em menos de 30 anos. Após deslizamentos de terra que vitimaram mais de 15 mil pessoas em 1999 e inundações em 2010, o regime de Chávez havia prometido moradia digna aos pobres, construindo novos prédios residenciais. Entretanto, muitos dos imóveis construídos sob sua direção desabaram neste ano, levando à morte de inúmeros moradores. Críticos alegam que não se considerou a instabilidade do solo, o que colocou as construções em risco de desabamento. O total de mortos após os terremotos ultrapassa 6.500, embora haja preocupações de que este número possa ser ainda maior.

Hoje, os escombros são vistos como símbolo do colapso de um projeto político e econômico falido, gerido por um regime autoritário e corrupto. A incerteza sobre o futuro da Venezuela se reflete também no destino de La Guaira. As autoridades prometeram construir moradias mais resistentes a terremotos, mas o ceticismo é alto em relação à capacidade do governo, que enfrenta dificuldades financeiras severas e que teve problemas para responder adequadamente ao desastre.

Muitos se perguntam se os sobreviventes estarão dispostos a continuar na área. “Não sei o que vai acontecer com a gente”, afirma Iraida Rivas, diretora de uma creche, que perdeu três de seus alunos nos terremotos. A região permanece em um limbo entre a tristeza da tragédia e as incertezas do futuro.

No meio das ruínas, onde ainda é possível ver as mãos dos falecidos sob pesados escombros, sobreviventes convivem, aguardando respostas. A quadra da escola Juan José Mendoza, que atendia mais de 1.400 alunos, abriga atualmente voluntários que ajudam nas operações de resgate. Até mesmo as escolas se tornaram abrigo para centenas de refugiados, com carteiras substituídas por beliches, enquanto feridos buscam abrigo em espaços que antes simbolizavam aprendizado.

Não está claro como será o futuro para a população local. Profissionais de diversas áreas, como taxistas e pedreiros, enfrentam o desemprego repentino. Um trabalhador desabrigado mencionou que planeja deixar o local com sua esposa, citando a falta de perspectivas.

Uma moradora, apesar de sua casa ter sofrido poucos danos, expressou sua vontade de deixar La Guaira. “Eu via dois prédios ali onde meus amigos moravam. Agora, não os vejo mais”, lamentou Celia Figueira, de 66 anos.

Barracas improvisadas ocupam os espaços vazios, enquanto muitos buscam seus entes queridos entre os escombros. “Não irei embora até encontrá-lo”, disse Dayana Delgado, cuja criança ainda está sob os destroços. Para ela, abandonar o local significaria deixar para trás memórias e esperanças.

Com a promessa do governo de construir novas moradias, a população permanece cética sobre as intenções reais do regime, especialmente após um trauma tão profundo. Muitos, como Zoe Santander, expressam receio. “La Guaira me assusta”, disse ela, refletindo a perspectiva de muitos que não desejam permanecer na região devastada.

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