O “modelo Bukele”, apresentado como solução para a violência em El Salvador, tem ganhado destaque no debate político do Brasil. Pré-candidatos à Presidência têm mencionado essa abordagem como exemplo no combate ao crime organizado.
Carlos Dada, cofundador do El Faro, aponta que a megaprisão Cecot, voltada para a contenção de gangues, oculta um sistema caracterizado por prisões em massa e violação de direitos. O trabalho de Dada, que registrou acordos entre o governo de Nayib Bukele e as gangues para a redução dos homicídios – que ao longo de 2015 tornaram El Salvador o país com a maior taxa de assassinatos –, levou-o ao exílio devido a perseguições.
De fora, Dada expressa sua preocupação com a adoção do “modelo Bukele” no Brasil. Ele destaca que a proposta de segurança adotada por Bukele é apresentada sob uma perspectiva extremista e criticamente demagógica, especialmente por incluir figuras que anteriormente colaboraram com o governo.
Durante sua visita ao Brasil para o Festival Piauí de Jornalismo, Dada discutiu a ascensão de Bukele e os impactos de sua política de encarceramento em massa. Atualmente, 1 em cada 50 cidadãos do país está preso. Caso o Brasil siga essa tendência, isso poderia resultar em uma população carcerária de 4 milhões, comparado aos cerca de 1 milhão que atualmente estão detidos no país.
O “modelo Bukele” centra-se na utilização das forças de segurança, incluindo polícia e Exército, que podem realizar detenções arbitrárias sem necessidade de ordens judiciais ou justificativas efetivas. Os motivos para essas prisões muitas vezes são vagos, como descrever o acusado como “suspeito” ou “nervoso”. Sob este regime de exceção, as detenções ultrapassam os cinco anos, e os detidos são levados a prisões onde não podem receber visitas ou informação sobre sua situação.
Em relação à superprisão Cecot, essa estrutura se tornou a representação emblemática do “modelo Bukele”. Apesar de sua aparência controlada e limpa, a realidade nas outras prisões e o tratamento dos detidos são muito menos favoráveis. Torturas sistemáticas foram reportadas, além de mortes sob custódia que não foram comunicadas às famílias, configurando uma grave violação de direitos humanos. Organizações internacionais denunciam que as ações do regime de Bukele podem ser classificadas como crimes contra a humanidade.
Dada alerta que a implementação de um regime de exceção para supostos criminosos ameaça os direitos de toda a população. Esse projeto autoritário do governo, segundo ele, visa criar um Estado policial que intimida os cidadãos a se afastar da crítica. Pelas ações do governo, El Salvador agora conta com presos políticos, incluindo defensores de direitos humanos e ativistas que criticam o regime.
A grande maioria dos detidos, aproximadamente 100 mil pessoas, não possui vínculos com gangues e caiu em operações policiais que exigiam quotas de prisões. O El Faro, onde Dada atua, foi pressionado a deixar o país por suas investigações sobre corrupção e os acordos de Bukele com as gangues, que incluem a concessão de benefícios em troca da redução de homicídios, visando não apenas uma diminuição dos crimes, mas também influência política.
Bukele, desde que assumiu o poder, consolidou suas forças ao desmantelar a oposição e manipular estruturas de poder, inclusive reconfigurando a Suprema Corte para legitimar sua reeleição. Atualmente, a possibilidade de sua saída do poder parece remota, dado o histórico de crimes cometidos e a situação atual do país.
Carlos Dada, jornalista de 55 anos e cofundador do El Faro, é um defensor da liberdade de imprensa, que teve que se exilar para proteger sua vida e continuar seu trabalho de investigação sobre política e direitos humanos, possuindo um histórico de prêmios em reconhecimento ao seu trabalho.


