O comércio global está passando por uma transformação significativa, onde o multilateralismo tem sido cada vez mais ignorado e fóruns de negociação se tornam menos eficazes. Nesse cenário, muitos países têm adotado estratégias geopolíticas centradas no protecionismo, implementando barreiras tarifárias e não-tarifárias. Diante desse quadro, o Brasil deve intensificar sua diplomacia agropecuária para se manter relevante no âmbito internacional.
Essa análise foi apresentada durante um painel sobre a importância do agronegócio na reconfiguração da geopolítica global, realizado no Global Agribusiness Festival (GAFFFF) em São Paulo. Pablo Ibañez, professor associado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, destacou que a China vem desafiando a tradicional hegemonia econômica dos Estados Unidos, investindo em ciência, tecnologia e inovação a níveis equivalentes aos gastos americanos.
Em relação ao setor de alimentos, a China enfatizou a segurança alimentar como um aspecto fundamental da segurança nacional, um exemplo que vem sendo seguido por outras nações. Ibañez comentou que existe um movimento de securitização na economia atual. Nesse panorama, o Brasil, que atua como um tomador de decisões, deve adaptar-se a essa nova realidade, priorizando os interesses nacionais em detrimento de rivalidades ideológicas.
Laura Antoniazzi, pesquisadora e sócia da Agroicone, abordou as barreiras tarifárias cada vez mais desafiadoras que o Brasil enfrenta, incluindo as altas tarifas impostas pelos EUA e as novas regulamentações da União Europeia sobre desmatamento. Ela afirmou que o Brasil deve questionar essas exigências, mas também deve ser pragmático a fim de atender às regras, visto que o mercado europeu é vital.
Antoniazzi também propôs a criação de uma “diplomacia do agro”, focada em negociações e estratégias de convencimento que integrem setores público e privado. Ela elogiou a existência de 40 adidos agrícolas brasileiros espalhados pelo mundo, enfatizando a importância de um trabalho tanto comercial quanto informativo que evidencie o valor das cadeias produtivas brasileiras.
No contexto da batalha de narrativas, Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), ressaltou que o Brasil possui um recurso significativo: a capacidade de oferecer alimentos de qualidade e de forma sustentável em um momento de insegurança alimentar global. Ele mencionou que cerca de 3 bilhões de pessoas no mundo não consomem anualmente a quantidade recomendada de proteína.
“Nós temos uma vantagem: alimentos saudáveis, seguros e altamente sustentáveis. Não nos consideramos superiores a ninguém, mas podemos afirmar que ninguém se equipara a nós”, concluiu.


