sábado, outubro 10, 2026
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Manutenção de crédito para endividados evita aumento da inadimplência, afirmam economistas

A manutenção do crédito para consumidores endividados é considerada um fator crucial para evitar uma elevação ainda mais acentuada dos índices de inadimplência no Brasil. Essa análise foi realizada pelos economistas Ariane Benedito e Matheus Pizzani, do PicPay, em entrevista ao sistema de notícias em tempo real Broadcast, do Grupo Estado.

De acordo com Ariane, durante a última reunião do comitê financeiro da instituição, uma interrupção repentina na oferta de crédito – seja por parte dos bancos ou das fintechs – poderia gerar um efeito oposto ao esperado. Ao invés de resolver as falhas do sistema, essa ação poderia agravar a inadimplência ao limitar o acesso dos devedores a recursos que ajudam a manter suas contas em dia. “Se pararmos de oferecer crédito, a situação vai se deteriorar. A inadimplência aumentará”, ressaltou.

A economista observa que, neste momento, a estratégia usual dos brasileiros endividados é quitar dívidas de um cartão de crédito utilizando outro, um comportamento que, embora assegure a adimplência no curto prazo, mantém elevados os índices de endividamento e o comprometimento da renda.

Ela classifica essa dinâmica como “crédito sujo”, que se concentra principalmente nas opções de crédito mais urgentes e acessíveis, como o rotativo do cartão e o cheque especial. Ariane destaca que a qualidade dessa prática é bastante baixa, visto que grande parte das dívidas está ligada a produtos financeiros de alto custo, frequentemente utilizados para transferir obrigações entre instituições.

Apesar desse cenário, ela aponta que esse processo é o que impede uma explosão na inadimplência. “O que vemos é que ainda há crédito suficiente para permitir que essas pessoas consigam pegar recursos de um lado e quitar dívidas do outro”, observa.

Esse fenômeno, conforme explicam Ariane e Pizzani, resulta em uma espécie de “estabilização artificial” da situação de adimplência. Os consumidores permanecem com dívidas e uma parcela significativa de sua renda comprometida, mas sem necessariamente entrar em atraso formal. “Embora estejam endividados, eles seguem adimplentes. É uma situação um tanto artificial”, disse Ariane.

A economista relaciona essa realidade ao aumento do acesso ao sistema financeiro proporcionado por fintechs e bancos digitais. Na visão dela, essa inclusão trouxe benefícios, mas também o efeito colateral de um maior comprometimento da renda das famílias.

Ela também enfatiza que essa questão apresenta uma dinâmica estrutural que não pode ser resolvida de maneira imediata. Ariane não observa evidências claras de que os indicadores de inadimplência já tenham alcançado um pico, e a redução desses números demanda tempo. “Mudanças significativas levarão anos. Não é algo que acontece da noite para o dia”, alerta. Nesse sentido, a redução no crédito neste momento seria uma medida extrema que impactaria negativamente a capacidade de pagamento dos devedores. “Não se pode simplesmente fechar a torneira do crédito”, disse, comparando essa estratégia a um golpe fatal na capacidade de pagamento do consumidor.

Sobre os programas de renegociação como o Desenrola, Ariane ressaltou que a necessidade desses mecanismos é um indicativo da estrutura atual. “Precisamos deles, mas é importante frisar que em três anos estaremos novamente discutindo outro Desenrola. É um problema estrutural”, destacou.

Adicionalmente, ao discutir o custo do crédito, Ariane argumentou que pressões para a redução das taxas ignoram os riscos envolvidos e podem levar as instituições a restringir a concessão de crédito. “Como é possível baixar as taxas sem considerar o risco? A conta não fecha”, explicou. Para ela, se o sistema for obrigado a baratear o crédito sem reduzir os riscos, isso resultará em uma diminuição da oferta, agravando a situação de inadimplência.

No PicPay, Ariane mencionou que a situação está sendo debatida pela equipe de crédito, buscando entender como a empresa tem conseguido evitar problemas e quando seria necessário ajustar a velocidade de concessão para não ser a primeira a enfrentar crises. O foco está em distinguir entre endividamento e inadimplência.

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