A utilização da mamadeira é uma prática comum em muitas famílias, desempenhando um papel significativo na alimentação infantil. No entanto, do ponto de vista odontológico, o foco principal não deve se restringir apenas ao uso, mas à frequência, intensidade e duração desse hábito.
Nos primeiros anos de vida, o desenvolvimento facial, muscular e das arcadas dentárias é intenso. Durante esse período, pressões repetidas sobre os dentes e estruturas orais podem afetar seu posicionamento. Estudos científicos indicam que o uso prolongado da mamadeira está associado à maior incidência de certas má oclusões, como a mordida aberta anterior, onde os dentes da frente não se tocam ao fechar a boca, e a mordida cruzada posterior, que acontece quando a arcada superior é mais estreita que a inferior.
Contudo, essa evidência não implica que todas as crianças que usam mamadeira terão problemas dentários. O desenvolvimento da mordida é influenciado por uma série de fatores, incluindo genética, crescimento facial, respiração e hábitos de sucção, como o uso de chupeta ou de dedos. Portanto, a mamadeira não é a única responsável por alterações ortodônticas, mas o impacto do uso repetido e prolongado é o que merece atenção.
Um conceito amplamente conhecido na Ortodontia, chamado tríade de Graber, ajuda a entender por que alguns hábitos têm maior impacto em certas crianças. Essa tríade envolve:
1. Intensidade: a força aplicada durante o hábito.
2. Frequência: a quantidade de vezes que o hábito ocorre diariamente.
3. Duração: o tempo que o hábito se perpetua na vida da criança.
Desta forma, a avaliação deve ir além da simples pergunta sobre o uso da mamadeira. É crucial considerar quão frequente é seu uso, por quanto tempo e há quanto tempo essa rotina se mantém. Uma mamadeira utilizada apenas para alimentação é muito diferente de uma que é usada por várias horas ou como um objeto de conforto.
O mercado oferece diversos tipos de bicos de mamadeira, incluindo os tradicionais, anatômicos e os chamados ortodônticos. Contudo, o rótulo “ortodôntico” não garante que o uso prolongado não cause alterações na mordida. Pesquisas que comparam os bicos tradicionais aos ortodônticos não encontraram diferenças significativas em relação aos efeitos no sistema estomatognático.
Assim, o mais relevante não é necessariamente o tipo de bico, mas sim a frequência e a duração do uso da mamadeira. Durante a amamentação, por exemplo, o bebê utiliza a língua e a mandíbula de maneira distinta em comparação com o que ocorre ao usar a mamadeira, resultando em estímulos diferentes para o desenvolvimento da mordida.
À medida que as crianças crescem, a mamadeira pode se tornar não apenas um meio de alimentação, mas também um objeto de conforto, aumentando assim a frequência e a duração do uso. Por isso, é vital que os pais reflitam sobre a real necessidade da mamadeira e até quando ela é realmente necessária.
Acompanhamentos odontológicos na infância são cruciais para monitorar o desenvolvimento das arcadas e dos dentes, permitindo identificar quaisquer alterações que precisem de atenção. Não se trata de proibir a mamadeira, mas de compreender como o hábito se integra à rotina da criança e se está sendo mantido além do necessário. Mudanças pequenas e repetidas no dia a dia podem afetar estruturas ainda em formação, reforçando a importância dos fatores de intensidade, frequência e duração.


