O técnico Jair Ventura, que comanda o Vitória, destacou que a pressão no futebol tem se tornado excessiva, prevendo que a situação tende a piorar. Sua declaração reflete uma crescente preocupação entre profissionais da área quanto ao impacto das redes sociais na dinâmica do esporte.
Nos últimos anos, reclamações sobre a maneira como jogadores e treinadores são tratados nas plataformas digitais tornaram-se mais comuns. Após a derrota do Grêmio para o Red Bull Bragantino no Campeonato Brasileiro, Luís Castro, técnico do Grêmio, criticou a agressividade das críticas direcionadas aos profissionais do esporte.
“Existem várias formas de criticar um treinador; a ofensa não é aceitável. Sou contra isso. Ninguém deve ser agressivo ou ofensivo, especialmente aqueles que estão envolvidos com o futebol”, afirmou durante uma coletiva.
Castro se alinha às observações de Abel Ferreira, do Palmeiras, que já havia declarado que o “futebol está doente”. Castro acrescentou que não é o esporte que apresenta problemas, mas sim a atitude das pessoas. Ambos os técnicos enfatizaram a falta de empatia e os ataques pessoais sofridos pelos profissionais após as partidas.
As críticas nas redes sociais não se limitam apenas aos técnicos. Os atletas também enfrentam comentários que vão além do desempenho esportivo. Philippe Coutinho, por exemplo, comentou sobre as dificuldades de ser avaliado publicamente após deixar o Vasco, sentindo que as críticas atingiam sua moral.
A pressão sobre jogadores chegou a níveis alarmantes, como no caso do zagueiro Matheus Dória, do São Paulo, que admitiu ter recebido ameaças contra sua vida e de sua família nas redes sociais após falhas em jogos. Em 2022, Willian sofreu intimidações virtuais durante sua passagem pelo Grêmio, o que o levou a considerar sua saída do futebol brasileiro.
A psicóloga Priscila Mendes, especialista no tema, observa que a exposição digital mantém os profissionais em um estado constante de alerta, mesmo fora do campo. Isso é evidenciado pelo fato de que cada erro pode resultar em inúmeros comentários online em questão de minutos, intensificando a pressão.
Roger Machado, ex-treinador do São Paulo, reforçou a diferença entre críticas construtivas e ataques pessoais, ressaltando que a pressão sempre foi parte do futebol, mas a forma de recebê-la mudou drasticamente.
Diante dessa situação, alguns atletas optaram por diminuir sua presença nas redes sociais para preservar sua saúde mental. Léo Ortiz, zagueiro do Flamengo, desativou suas contas após perceber que partes das críticas afetavam seus aspectos pessoais. Ele mencionou que desconsiderar críticas táticas era simples, mas que ofensas relacionadas a sua vida pessoal eram prejudiciais.
Priscila também mencionou que a dificuldade de se desligar das publicações pode ser um sinal de que a exposição digital está impactando negativamente os profissionais. Os atletas, mesmo quando se afastam das redes, reconhecem a importância delas em suas carreiras, sendo ferramentas essenciais para comunicação e geração de receitas.
A influência das plataformas digitais não se limita ao impacto na saúde mental dos atletas, mas também se estende ao mercado de transferências. Clubes europeus passaram a monitorar o comportamento online dos jogadores antes de efetuar negociações, considerando este aspecto fundamental em suas avaliações.
Thiago Freitas, de uma agência de gestão esportiva, apontou que a conectividade constante têm diminuído as horas e a qualidade de sono dos atletas. Essa situação é agravada pela exposição pública de suas preferências e rotinas, que pode gerar insatisfação entre os torcedores em momentos de desempenho insatisfatório.
A solução para minimizar esses efeitos não se resume a abandonar as redes sociais. Limitar o uso das plataformas ou delegar o gerenciamento das contas a equipes de comunicação pode ser uma alternativa saudável. Os clubes também desempenham um papel importante, oferecendo acompanhamento psicológico e orientações sobre o uso responsável das redes.
Além disso, é essencial que os atletas aprendam a estabelecer limites em relação às publicações, evitando comentários imediatamente após as partidas, silenciando palavras e perfis negativos, e gerenciando notificações, para que possam lidar com as críticas de forma mais saudável e centrada em sua vida pessoal e profissional.
