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Ex-refém das Farc se torna biólogo e estuda pássaros ao lado de ex-guerrilheiros

O Acordo de Paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que completou dez anos de sua primeira assinatura em 26 de setembro, trouxe à mente de Diego Calderón-Franco as lembranças de sua juventude nos anos 2000, quando era estudante de biologia na Universidade de Antioquia e começou a se interessar pela observação de aves.

Em 2004, enquanto realizava uma expedição científica na Serranía del Perijá, foi sequestrado pelo grupo guerrilheiro e permaneceu sob sua custódia por 88 dias. O acordo estabelecido entre o governo colombiano e as Farc possibilitou que Franco reencontrasse alguns de seus sequestradores, agora como colaboradores em futuras expedições.

Desde 2016, o biólogo já participou de aproximadamente dez capacitações em observação de aves com ex-guerrilheiros, convertendo sua experiência em palestras. Ele ressalta que seu objetivo é apresentar uma nova perspectiva sobre o conflito, gerando reflexão entre os participantes.

Calderón-Franco recorda que, ao iniciar seus estudos em 2000, a guerra civil na Colômbia apresentava momentos de melhora em algumas regiões, mas em outras a situação se agravava. Como estudante, frequentemente se deparava com grupos armados durante suas saídas de campo, apresentando cartas da universidade que explicavam seu trabalho de pesquisa.

Durante sua graduação, ele organizou uma expedição científica à Serranía del Perijá, região com grande biodiversidade ainda desconhecida, devido à exploração limitada provocada pelo conflito. Com um botânico e um guia local, partiu em uma viagem que terminou em sequestro.

A situação ficou crítica quando, numa das últimas noites da expedição, um grupo de guerrilheiros se identificou e impediu que deixassem o local. Inicialmente, entregaram as cartas da universidade, mas após um dia sem resposta, foram cercados por guerrilheiros armados. Após semanas, o comandante decidiu que exigiria um resgate, e Franco, então, tornou-se um “pacote” esperando ser libertado.

Durante os 88 dias em cativeiro, ele descreveu a experiência como um retorno à infantilidade, tendo que solicitar ajuda para necessidades básicas. Ele afirma que, apesar da tensão, manteve uma visão estoica da situação, observando a vida ao seu redor, inclusive analisando insetos como uma forma de distração.

Quando libertado, ele voltou à sua vida e, em 2007, concluiu seus estudos em biologia, direcionando sua carreira para o turismo e a observação de aves.

Com o Acordo de Paz assinado em 2016, Franco sentiu um impulso para atuar. Viu como natural que a Colômbia realizasse um pacto com o maior grupo guerrilheiro do país. Após a assinatura, foi criado um fundo para explorar regiões antes inacessíveis, levando várias pessoas, incluindo guerrilheiros e vítimas do conflito, a realizarem pesquisas em conjunto.

Ele participou de diversas expedições e, em algumas delas, reencontrou aqueles que estiveram em seu sequestro, incluindo Omar, que agora dirige uma oficina de confecções. A interação com os ex-guerrilheiros é marcante, pois muitos deles não fazem menção a um pedido de desculpas, mas compartilham histórias que revelam a complexidade da origem do conflito.

Franco finaliza destacando que a falta de oportunidades é uma das causas centrais do conflito armado na Colômbia. As expedições também geram um efeito importante: ao se deparar com aqueles que o sequestraram, ele mostra que não nutre ódio, e que a observação de aves pode criar vínculos inesperados entre indivíduos de histórias tão distintas.

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