Quando se trata de preservar a memória e garantir a saúde cerebral ao longo do tempo, muitas pessoas imediatamente associam isso a vitaminas, ômega-3 e diversos suplementos. Contudo, uma das estratégias mais eficazes para um envelhecimento saudável pode estar em uma abordagem mais simples: a prática regular de atividade física, com ênfase no fortalecimento muscular.
Historicamente, os músculos têm sido vistos principalmente em relação à força, mobilidade e aparência física. Entretanto, atualmente se reconhece que eles desempenham funções muito mais abrangentes no corpo humano.
Os músculos são considerados tecidos metabolicamente ativos. Durante a prática de exercícios, eles liberam substâncias que circulam pelo organismo e colaboram na comunicação com diferentes órgãos, incluindo o cérebro. Essas substâncias estão ligadas ao controle da inflamação, ao metabolismo da glicose e aos processos que sustentam e formam conexões neurais.
Durante a atividade física, os músculos parecem enviar sinais ao corpo que favorecem o funcionamento de diversos sistemas. Os benefícios observados não se restringem a laboratórios; pesquisas demonstram que o treinamento de força pode aprimorar várias facetas da função cognitiva, como memória, planejamento e execução de tarefas que exigem atenção.
É importante destacar que realizar musculação não garante a prevenção do Alzheimer ou de outras formas de demência. A ciência atual não sustenta essa afirmação. No entanto, as evidências reforçam a importância de um princípio fundamental: a saúde cerebral está intrinsecamente ligada à saúde geral.
Condições como hipertensão, diabetes, obesidade, níveis elevados de colesterol e a falta de atividade física não apenas aumentam o risco de problemas cardiovasculares, mas também podem afetar negativamente a saúde cerebral ao longo da vida. Mantendo a pressão arterial, a glicose e o colesterol em níveis adequados, além de parar de fumar e realizar atividade física, não estamos apenas prevenindo infartos, mas também protegendo os vasos sanguíneos que fornecem sangue e oxigênio ao cérebro.
Além disso, o exercício regular desempenha um papel crucial na preservação de massa muscular, força e capacidade funcional, os quais tendem a se deteriorar com o envelhecimento.
Não é necessário se tornar um atleta para colher benefícios. As diretrizes internacionais recomendam a realização de exercícios de fortalecimento dos principais grupos musculares, pelo menos duas vezes por semana, em conjunto com atividades aeróbicas. Caminhar, correr e pedalar são exemplos de atividades benéficas. Contudo, especialmente com o avançar da idade, o treinamento de força deve ser integrado à rotina.
O treinamento pode ser adaptado conforme a condição física, idade e limitações de cada indivíduo. Para aqueles que estão iniciando ou têm doenças crônicas, é aconselhável buscar orientação profissional para definir a intensidade e progressão dos exercícios.
É crucial não exagerar interpretações comuns: não se pode simplesmente afirmar que “quanto mais músculos, menor o risco de demência”. A relação entre a musculatura e a saúde cerebral é muito mais complexa. O que as pesquisas indicam é que manter-se ativo, preservar a força e evitar a perda muscular contribui para um envelhecimento saudável e traz benefícios cognitivos.
Suplementos têm sua utilização restrita a situações específicas, especialmente quando há deficiência nutricional diagnosticada. O erro está em acreditar que uma pílula pode substituir hábitos que são essenciais para a saúde a longo prazo. Alimentação equilibrada, sono adequado, atividade física regular, controle de fatores de risco cardiovascular e acompanhamento médico continuam a ser fundamentais.
Ao considerar a prevenção do declínio cognitivo, além de avaliar memória, alimentação e exames médicos, é necessário questionar: como está a sua força? Cuidar da musculatura não diz respeito apenas à capacidade de levantar pesos ou manter uma boa aparência, mas sim à chance de chegar aos 70, 80 ou 90 anos com a habilidade de levantar-se de uma cadeira, subir escadas, carregar compras e preservar a independência.
Por fim, a musculação vai além do simples aumento da massa muscular. Trata-se de construir uma reserva física que possibilite um envelhecimento com qualidade.


