domingo, agosto 23, 2026
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Cientistas detectam quantidade inédita de deformações em peixes do ES

Cientistas das universidades Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) identificaram uma taxa alarmante de deformidades em peixes no litoral norte do Espírito Santo. De acordo com o estudo, 60,5% das amostras da espécie Stellifer naso, conhecida como cabeçudo-preto ou tambor-estrela, apresentaram anomalias.

Esse índice de malformação é superior a todos os previamente registrados na literatura científica do Brasil, onde o maior percentual até então era de 27,1%, observado em bagres da espécie Cathorops spixii. Publicadas na revista Ocean and Coastal Research, as conclusões do estudo sugerem que as deformidades podem ser consequência da contaminação ambiental persistente resultante do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), ocorrido em 2015.

O pesquisador Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da UFRJ, revelou que as coletas dos peixes foram realizadas em maio de 2022, quase sete anos após o desastre, na foz do Rio São Mateus, próximo a Conceição da Barra (ES). Andrade-Santos destacou que, em comparação a outros estudos em todo o Brasil, os resultados obtidos foram significativamente mais elevados em relação ao número de peixes com deformidades, indicando uma possível conexão com os efeitos do desastre mencionado.

A pesquisa indicou anomalias nos otólitos sagitais, estruturas localizadas no ouvido dos peixes, que desempenham um papel crucial no equilíbrio, orientação espacial e percepção sonora. A espécie Stellifer naso vive próximo ao fundo do mar, em águas rasas, e sua proximidade com sedimentos contaminados pela lama da mineração a torna mais vulnerável a esses poluentes.

Os autores do estudo enfatizam que, devido à falta de amostras coletadas antes de 2015 para comparação, não é possível estabelecer uma relação causal definitiva entre as deformidades e o rompimento da barragem. Contudo, essa limitação gera um alerta sobre a necessidade de financiamento para coleções biológicas de referência e realização de estudos de longo prazo que abordem os impactos ambientais.

A equipe de pesquisa planeja realizar uma análise química das amostras para identificar os minerais acumulados nos otólitos, investigar possíveis deformações externas nos peixes e continuar o monitoramento na região nos anos seguintes, a fim de avaliar a recuperação do ecossistema. Andrade-Santos complementou que o estudo, além de diagnosticar contaminação, enfatiza a importância do diálogo entre ciência e sociedade para garantir a proteção do ecossistema e das populações que dele dependem.

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