Em Cariacica, na vastidão verde dos bananais, agricultores que enfrentam desafios de comercialização encontraram na cooperativa uma nova maneira de potencializar a venda de suas bananas. O trabalho nas plantações começa cedo, antes mesmo do sol surgir, e, com a união dos agricultores, eles conseguiram expandir seu mercado.
A Cooperativa da Agricultura Familiar de Cariacica (CAFC), fundada em 2017, surgiu como uma resposta às dificuldades dos produtores locais. Anteriormente limitados na venda de suas colheitas, eles agora, graças ao esforço coletivo, têm acesso a mercados maiores e mais variados.
A vida rural é marcada por desafios constantes, mas os agricultores perceberam que, ao se unirem, poderiam mudar sua realidade. A banana, que por muito tempo teve dificuldades para ser comercializada, agora se tornou símbolo de novas oportunidades financeiras e estabilidade, especialmente para as futuras gerações.
A produção, cultivada por gerações, agora alcança escolas e diversos estados do Brasil. Os agricultores encontraram formas inovadoras de garantir que a produção no campo continue sendo um sustento viável e compensador.
Para muitos, não era suficiente produzir; era necessário encontrar compradores e garantir preços justos para suas frutas. A cooperativa, nesse contexto, passou a desempenhar um papel crucial nas transações comerciais.
Sérgio Boldi, um dos colaboradores da cooperativa, compreende bem as dificuldades da agricultura familiar. Como filho de agricultores, aprendeu a trabalhar a terra e, em 2003, a família se mudou para Cariacica, onde a agricultura sempre fez parte da sua vida.
“Desde que éramos crianças, nossos pais eram agricultores, e continuamos nessa atividade porque é fundamental. Gosto muito de mexer com agricultura e cultivar o alimento de nossa família”, afirma Sérgio.
Embora a produção tenha aumentado, o preço da banana caiu entre 2016 e 2017, dificultando as vendas. Foi então que os agricultores decidiram enfrentar o problema juntos, encontrando na cooperativa uma solução mais eficaz.
“Naqueles anos, o preço da banana estava em baixa, e decidimos criar a cooperativa, pois em grupo é mais fácil vender”, explicou Sérgio.
Antes da cooperativa, a possibilidade de vender as frutas nem sempre era garantida. Eduardo Geraldo Facco, um agricultor que entrou na cooperativa em 2017, recorda que a comercialização dependia majoritariamente de feiras e atravessadores.
“A perspectiva de vendas era limitada. Com a nova organização, conseguimos abrir as portas para o mercado e dobrar a produção, que antes era vendida principalmente por meio de feiras”, destacou Eduardo.
Com a cooperativa, Eduardo pôde acessar novos mercados e transformou sua visão sobre a agricultura. O aumento nas vendas resultou em uma melhoria na renda familiar e na realização de sonhos que antes pareciam distantes.
“A renda aumentou, consegui reformar a casa, comprar um carro e uma moto, tudo graças à cooperativa, que nos incentiva a expandir a produção com garantias de mercado”, disse Eduardo.
Fundada oficialmente no dia 22 de agosto de 2017 por um grupo de 20 produtores, a CAFC-ES tem enfrentado a crise na agricultura familiar, oferecendo uma nova perspectiva aos agricultores, que tinham dificuldades em estabelecer preços que garantissem sua renda. Davi Dutra, presidente da cooperativa, reforça que a união entre os agricultores foi essencial.
“De 2016 a 2017, enfrentamos uma grave crise agrícola, mas os agricultores estavam sem renda, já que o valor do produto estava muito baixo”, comentou Davi.
Com esse desafio, os agricultores decidiram se unir e criar oportunidades de venda. Atualmente, a banana é o carro-chefe da cooperativa, que também inclui a produção de doces e contratos com prefeituras da Grande Vitória.
“Desde a formação da CAFC-ES, temos trabalhado intensamente e hoje ampliamos a produção, que inclui não apenas bananas, mas também suas conservações”, ressaltou Davi.
A construção de confiança entre os agricultores foi vital para o sucesso da iniciativa. Inicialmente, muitos duvidavam do potencial da cooperativa.
“Quando começamos a discutir a ideia, houve ceticismo. Sempre dizia: juntos somos mais fortes. Assim, começamos com 20 produtores e agora já são 450 associados”, compartilhou Davi.
De acordo com Haroldo Mascarenhas da Silva, coordenador do Incaper em Cariacica, a produção de banana é um legado de gerações e representa uma importante fonte de renda que destaca a agricultura familiar na região.
“A produção de banana é um dos pilares da agricultura familiar e é considerada a maior produção de banana orgânica do Espírito Santo”, declarou Haroldo.
As bananas cultivadas na localidade chegam a diversas plataformas de venda, como a Ceasa, além de serem utilizadas em programas institucionais, como os de alimentação escolar. Para algumas famílias, essa produção representa até 90% da renda familiar.
Embora o cultivo garanta certa estabilidade, ainda existem desafios logísticos e de manejo. A produção depende do uso da mão-de-obra, disponibilidade de água e condições climáticas favoráveis.
Sérgio Boldi, por sua vez, tem incentivado suas filhas a se envolverem com a agricultura desde cedo. Sofia e Gabriela, de 14 e 10 anos, respectivamente, auxiliam em algumas tarefas administrativas da propriedade.
“Minhas filhas ainda não trabalham no campo, mas ajudam com as questões administrativas e percebo que essa conexão é importante,” comentou Sérgio.
A produção de Sérgio também é destinada à alimentação escolar, um ciclo que une produção à educação. O resultado agrícola chega aos pratos das alunas e das próprias filhas de Sérgio.
A cooperativa, além de produtos in natura, fornece também doces para escolas e prefeituras, criando uma ponte direta entre os agricultores e a comunidade. A demanda escolar é significativa e possibilita o fornecimento regular de frutas frescas e produtos derivados.
Os contratos da cooperativa se estendem a municípios, e a manutenção de um sistema de entrega eficiente é parte crucial dos novos arranjos comerciais. Isso permite que os produtos fiquem mais frescos e com maior valor nutricional.
A banana é um alimento que se destaca na cultura capixaba e presente em 21.339 propriedades, conforme o Censo Agropecuário de 2017. Os municípios do Espírito Santo com a maior produção são Alfredo Chaves, Iconha, e Domingos Martins.
Quando as bananas não atendem aos padrões de comercialização, a cooperativa desenvolveu um sistema de beneficiamento, criando novos produtos, como doces e farinhas. Essa estratégia minimiza as perdas e assegura que a produção não se torne descartada.
Com planos de expandir a linha de produtos, a cooperativa almeja construir uma unidade de produção para doces e derivados de banana, buscando agregar valor à produção agrícola capixaba.
Davi, presidente da CAFC, salienta que a intenção é garantir uma valorização tanto dos produtos quanto dos agricultores, mantendo viva a agricultura familiar no futuro. O trabalho no campo é fundamental, e a união entre os produtores é um fator decisivo para continuar a evolução dos desafios enfrentados.
Os frutos plantados em Cariacica agora encontram novos horizontes, com possibilidades de exportação para mercados internacionais, incluindo conversas sobre o doce de banana. As perspectivas de crescimento são encorajadoras.
“Estamos prevendo a exportação do doce de banana orgânico em breve. Isso representa um passo importante para ampliar o sucesso da CAFC, levando nossos produtos para o exterior”, concluiu Ronaldo Monteiro Barcelos, supervisor de vendas da cooperativa.
