Quando Maria de Lourdes Arrabal exerceu seu direito de voto pela primeira vez, sentiu um misto de ansiedade e medo. Com 74 anos e aposentada da profissão de professora, ela relata que estava apreensiva, como se fosse o centro das atenções. A lembrança da ditadura, período em que a escolha do presidente era feita indiretamente, influenciou sua visão sobre a importância do voto e a motivou a nunca deixar de comparecer às urnas.
No entanto, essa relação de Maria com o ato de votar não é compartilhada por todos. No Espírito Santo, 639.248 eleitores não compareceram ao primeiro turno das eleições, mas ainda têm a oportunidade de votar hoje, conforme informações da Justiça Eleitoral. Esse número representa quase o dobro da diferença de 329.236 votos entre os dois candidatos mais votados no primeiro turno da eleição para o governo estadual.
De acordo com Rosiane Marrochi, membro da Comissão de Mesários do Tribunal Regional Eleitoral do Espírito Santo, aqueles que não votaram no primeiro turno podem participar do segundo, mesmo sem justificar a ausência ou quitar a multa correspondente.
“Aqueles que não conseguiram votar no primeiro turno e ainda não procuraram a Justiça para justificar ou quitar a multa podem exercer seu direito no segundo turno. Essas situações são independentes uma da outra”, explica.
Entre os eleitores com voto facultativo, encontram-se jovens de 16 e 17 anos, além de pessoas com 70 anos ou mais. No Estado, 412.370 eleitores pertencem a essa categoria. No primeiro turno, 46,11% deles não compareceram às votações.
Maria relembra sua vivência em tempos de ditadura, dizendo: “Fomos gerados sob essa realidade. Eu vivi momentos em sala de aula sob vigilância constante. Era uma situação angustiante. Tínhamos apenas dois partidos disponíveis quando começamos a votar. Antes disso, as nomeações eram feitas pelos militares.”
Ela menciona que, em ocasiões em que não pôde votar, sentiu-se mal por não justificar sua ausência. Já seu marido, Antônio Miguel Arraba, 84 anos, afirma que votar é um exercício de cidadania. “Quero votar e continuarei a fazê-lo enquanto tiver a oportunidade”, afirma.
O casal sempre enfatizou a importância do voto para sua filha, Silvana Arraes, que, por sua vez, transmitiu essa lição ao filho, Gabriel Arraes, de 18 anos. Ele vota desde os 16, incentivado pelos pais. Aos 50 anos, Silvana expressa tristeza ao perceber que tantas pessoas não exercem esse direito. “Votar é um dever. Se não compreendermos que nosso voto pode causar impacto, como podemos esperar um Brasil melhor?”

