Cerca de 2,9 milhões de idosos no Brasil convivem com Alzheimer e outras formas de demência, sendo que aproximadamente 80% desses casos ainda não foram diagnosticados, conforme dados do Ministério da Saúde. A dificuldade em perceber os primeiros sinais da doença e a necessidade de avaliações especializadas fazem com que muitos descubram a condição apenas quando os sintomas já estão mais avançados.
Um novo exame de sangue, conhecido como p-tau217 plasmático, está sendo introduzido no Brasil como uma ferramenta para auxiliar na investigação do Alzheimer. Este teste identifica alterações biológicas relacionadas à doença, podendo ajudar a esclarecer casos de declínio cognitivo, embora não sirva como um diagnóstico definitivo e não seja apropriado para qualquer pessoa que tenha lapsos de memória.
Neste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária aprovou as primeiras plataformas para a realização deste tipo de teste. Em agosto, a plataforma Lumipulse G pTau da farmacêutica Fujirebio foi aprovada. Em setembro, foi a vez do Elecsys pTau217, da Roche Diagnóstica, receber autorização.
Recentemente, o Hospital Moinhos de Vento, localizado em Porto Alegre (RS), tornou-se a primeira instituição brasileira a disponibilizar o exame, que tem um custo de R$ 3,2 mil e ainda não está presente no Sistema Único de Saúde.
Para explicar o funcionamento do novo exame, bem como quem pode se beneficiar e quais são seus limites, o neurologista destacou que o exame realiza a medição de proteínas no plasma sanguíneo, que estão associadas ao Alzheimer. O principal marcador analisado é a tau fosforilada na posição 217 (p-tau217), que apresenta níveis elevados em indivíduos com acúmulo de placas de beta-amiloide no cérebro.
Segundo o neurologista, o teste foca principalmente na p-tau217 e no peptídeo beta-amiloide 1-42, analisando a relação entre esses marcadores. O resultado contribui para a identificação de alterações que possam estar relacionadas à doença.
A facilidade do exame é um ponto positivo em comparação aos métodos tradicionais, pois é possível realizá-lo através de uma simples coleta de sangue, eliminando a necessidade de punção lombar ou exames de imagem para visualizar as placas de amiloide no cérebro.
Os resultados de pesquisas que avaliaram os testes sanguíneos para Alzheimer são encorajadores, mas a confiabilidade deles pode variar conforme o método utilizado e as condições de saúde de cada paciente. Embora os estudos que respaldaram a liberação do exame tenham mostrado boa correlação com outros métodos diagnósticos, o neurologista observa que falsos positivos e falsos negativos podem ocorrer, dependendo de fatores como função renal, que pode interferir na interpretação dos resultados.
Neste contexto, é recomendado que confirmações de achados sejam realizadas por meio de exames de imagem ou análises do líquido cefalorraquidiano. Além disso, nem todos os testes sanguíneos disponíveis no mercado apresentam o mesmo nível de eficácia. Portanto, a aprovação de uma plataforma não garante que todos os exames desse tipo possam substituir os tradicionais em todas as situações.
A indicação atualmente é restrita a adultos acima dos 55 anos que apresentem sinais ou sintomas compatíveis com Alzheimer. O teste pode ser considerado na investigação de alterações cognitivas, desde que, segundo a avaliação médica, traga informações relevantes. O exame não deve ser utilizado para rastrear a população em geral ou para indivíduos assintomáticos que apenas desejam saber se têm risco de desenvolver a doença no futuro.
Especialistas ressaltam que queixas de esquecimento isoladas não justificam a solicitação do teste. A avaliação clínica deve preceder a decisão de realizar o exame, já que diversas condições, como privação de sono, estresse ou deficiências vitamínicas, também podem afetar a memória.
A presença de histórico familiar de Alzheimer pode aumentar a inquietação em relação à doença, mas isso não implica que a pessoa necessariamente desenvolverá a condição. Para aqueles que começaram a perceber falhas de memória, o primeiro passo recomendado é a consulta a um neurologista que poderá avaliar quando os sintomas iniciaram e se há outras causas a serem consideradas.
Ainda que o exame sanguíneo represente uma ferramenta promissora para o diagnóstico do Alzheimer, seu valor é dependente de uma indicação correta e da interpretação por um profissional qualificado. Essa novidade pode facilitar a investigação, mas não dispensa uma avaliação clínica completa.
Um resultado positivo no teste sinaliza a presença de biomarcadores associados à doença, mas não garante que a pessoa já esteja com demência ou que venha a desenvolver sintomas no futuro. Alterações biológicas relacionadas ao Alzheimer podem surgir anos antes de qualquer manifestação clínica, indicando que a interpretação do resultado deve ser feita em conjunto com a queixa do paciente e exames adicionais.
A identificação precoce do Alzheimer é fundamental, pois pode aumentar as oportunidades de cuidados e permitir que a família se prepare antes que a doença comprometa ainda mais a autonomia da pessoa. Além disso, reconhecer a condição mais cedo possibilita o tratamento de fatores de risco modificáveis.
Atualmente, o novo teste não está disponível no Sistema Único de Saúde e não há uma previsão concreta para isso. A tecnologia também não está incluída entre os procedimentos obrigatórios dos planos de saúde, resultando em uma não cobertura dos custos do exame. Até o momento, o exame é oferecido apenas em um centro no Brasil, localizado em Porto Alegre, com previsão de expansão para outras localidades.

