segunda-feira, agosto 24, 2026
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No Camboja, brasileiros traficados enfrentam cativeiro, vigilância e tortura.

Uma operação policial em Poipet, no Camboja, chocou So Raksa, de 26 anos, que comemorava seu casamento em casa com amigos e familiares. Enquanto a festa ocorria, ela testemunhou uma agitação incomum a cerca de 200 metros de sua residência, onde um condomínio estava sendo alvo de ações da polícia. “Foi surpreendente porque eram muitos”, lembrou ela.

Dentro do complexo, homens e mulheres de diversas nacionalidades tentavam escapar. Essas pessoas eram vítimas de um esquema de tráfico humano, atraídas por promessas de empregos com alta remuneração, mas que acabaram sendo forçadas a aplicar golpes eletrônicos. Hoeung Heab, mãe de Raksa, notou marcas de violência em algumas vítimas. “Alguns tinham o olho roxo, os braços e as pernas machucados”, informou. Ela já havia entrado no local para fornecer água, uma das formas de sustento da família, e presenciou a brutalidade dos responsáveis. “Os chefes eram violentos e espancavam pessoas dentro do local.”

Os prédios onde a operação aconteceu já haviam sido associados a brasileiros que caíram nas malhas de golpes. João (nome fictício), de 25 anos, contou sobre a promessa de um trabalho que pagaria US$ 4.000 (aproximadamente R$ 20 mil) para 12 horas diárias, com uma folga semanal e um ano de contrato. Localizada na fronteira com a Tailândia, Poipet é reconhecida como um centro de tráfico de pessoas no Camboja, e em 2025, foi o principal destino de vítimas brasileiras, conforme um relatório do Ministério da Justiça.

Foram registrados 44 casos de vítimas brasileiras, de um total de 84, um aumento de 33% em relação ao ano anterior, que contava com 63. Naquele período, as Filipinas eram o principal local de destino, seguidas por Laos e Camboja. Como 2024 foi o primeiro ano de coleta sob o novo protocolo, não é possível estabelecer comparações com anos anteriores.

A pasta responsável ressalta que os dados podem estar subnotificados, já que nem todas as vítimas acessam os serviços públicos. O trabalho escravo foi citada como a principal motivação do crime em 2025, com 49 registros associados. Todas as ocorrências no Camboja relatavam que as vítimas estavam nas condições de exploração.

Paulo (nome fictício) chegou ao Camboja após um voo para Bancoc, na Tailândia, e foi levado a Poipet. Três meses depois de trabalhar em funções não relacionadas aos golpes e de observar a chegada de brasileiros, ele decidiu pedir para sair. “Fui ameaçado de prisão e de represálias à minha família”, contou. Ao tentar deixar o local, foi informado de que deveria realizar o trabalho que seus superiores determinavam.

Outras vítimas, que falaram com a Folha em anonimato, relataram ter sido atraídas para o país sob promessas de salários altos e benefícios, mas se viram coagidas a aplicar golpes online em situações de ameaça e tortura. O cotidiano dessas pessoas era repleto de vigilância e intimidação, com penalidades para aqueles que se recusavam a trabalhar, tentavam contatar as autoridades ou não conseguiam cumpri os objetivos financeiros estabelecidos. As sanções incluíam humilhações públicas e violência física.

Ao chegarem, os passaportes eram confiscados sob a alegação de que a empresa iria processar seus vistos de trabalho, mas nunca os documentos eram devolvidos. As vítimas eram obrigadas a assinar contratos de um ano, que as obrigavam a pagar dívidas exorbitantes referentes a alimentação, passagens e alojamento, fazendo com que seus salários fossem reduzidos a praticamente nada.

Demoras, erros nos processos do golpe ou breves intervalos causavam também descontos salariais. Um documento fornecido por uma das vítimas detalhava os custos que teria que arcar se decidisse deixar o local, impossibilitando sua saída, acumulando um total de US$ 12.439 (aproximadamente R$ 64 mil).

Além das dívidas, as vítimas enfrentavam forte segurança que impedia sua fuga. O complexo de Poipet era rodeado por barreiras e segurança, com alto muros de concreto e arame farpado. Câmeras de vigilância garantiam a monitorização constante.

Os prédios em questão, que ocupavam uma área afastada do centro da cidade, estavam cercados por terrenos baldios e poucos comércios. A vizinha Heab comentou sobre a perda de uma fonte de renda com o fechamento do complexo, embora se sentisse aliviada com o fim da violência que ali ocorria. “Se eles estão lá, é bom para mim, mas agora que não estão, percebo que é parte do trabalho do governo resgatar a todos”.

O mesmo problema é observado em cidades como Sihanoukville e na capital, Phnom Penh. As fábricas de golpes no Camboja, assim como em outros países do Sudeste Asiático, nasceram de uma rede de cassinos que atraíam turistas chineses até que uma proibição a jogos online, instaurada em agosto de 2019, alterasse o cenário.

Com o fechamento de cassinos e a proibição, diversas organizações criminosas se aproveitaram da estrutura física e das conexões ilegais para criar suas operações fraudulentas. No entanto, o governo cambojano, sob pressão internacional, intensificou ações de combate a esse crime desde julho de 2025.

De acordo com enfermeiros e atendentes do hospital de Poipet, houve um aumento significativo de pacientes estrangeiros que escaparam desses complexos, muitos com ferimentos graves. Quebras de braços e pernas tornaram-se comuns, porém, a maioria das vítimas era deportada rapidamente, sem acesso ao necessário acompanhamento médico.

A eficácia das operações policiais é alvo de críticas por parte de organizações não governamentais. A Anistia Internacional afirmou que as ações têm sido ineficazes, com falhas que permitiram a continuidade dos complexos após as investigações, e destacaram a criminalização das vítimas e o possível conluio entre autoridades locais e gerentes.

O ministro da Informação do Camboja, Neth Pheaktra, manifestou que o governo leva as denúncias a sério e garantiu que investigações serão conduzidas em casos onde autoridades possam ter protegido atividades criminosas ou se beneficiado delas. Ele também destacou a cooperação com o Brasil em operações contra golpes online e em esforços para repatriar cidadãos brasileiros em situações semelhantes.

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