quarta-feira, setembro 30, 2026
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Historiadores comparam Brasil e Austrália na relação com a China

Em 2020, a Austrália solicitou uma investigação independente sobre a origem da pandemia de Covid-19, o que resultou em retaliações por parte da China, que restringiu importações australianas de produtos como vinho, cevada, carvão, carne e lagosta. Apesar das pressões, Canberra manteve sua posição firme. Os exportadores australianos reagiram buscando novos mercados, enquanto o governo reforçou suas alianças de segurança. No entanto, a China decidiu deixar o minério de ferro de fora dessas retaliações, demonstrando a importância desse recurso em sua economia.

Esse contexto é analisado por Kenneth Maxwell e Robbin Laird em sua obra “O Brasil, a Austrália e a China no Mundo em Evolução”. Ambos os países compartilham características comuns: são democracias continentais situadas no hemisfério Sul, potências médias, exportadores de commodities e têm uma forte interdependência com a China. Contudo, nas suas relações com Pequim, cada um fez escolhas diferentes.

A Austrália optou por enfrentar as consequências de sua resistência, diversificando seus mercados e consolidando alianças, como Aukus, Quad e Five Eyes. Os autores não veem essa postura como um exemplo de virtude, mas sim como resultado de uma circunstância favorável: a China não conseguia facilmente abrir mão do minério de ferro australiano. A geologia e décadas de parcerias forneceram à Austrália uma margem de manobra para resistir às pressões.

Por outro lado, o Brasil apresenta um cenário distinto. Em 2024, a China era responsável por absorver 73% das exportações de soja do Brasil, mais de 71% das exportações de minério de ferro e 44% das de petróleo. Maxwell e Laird não veem essa relação como uma mera submissão, mas sim como fruto de vantagens comparativas reais, como a transformação do cerrado e a competitividade das empresas brasileiras no mercado global.

O desafio surge quando uma relação economicamente vantajosa começa a restringir as opções do país. Os autores identificam isso como “armadilha da potência média”, em que decisões que parecem sensatas isoladamente, se acumuladas ao longo do tempo, podem limitar a autonomia futura.

Sob essa perspectiva, eles expressam críticas contundentes ao governo Lula. A postura do Brasil em relação à guerra na Ucrânia, a busca por menor dependência do dólar e o estreitamento das relações com a China indicariam uma estratégia que aposta que os benefícios econômicos imediatos superam os riscos estratégicos a longo prazo.

Maxwell e Laird argumentam que quanto mais o Brasil se compromete, mais difícil se torna retomar a liberdade de escolha. A análise também se estende à noção de “Sul Global”, desafiando a ideia de que Brasil e Austrália compartilham esta identidade mais genuína, marcados por um passado colonial e ainda dependentes da exportação de matérias-primas. Em contraste, potências como China, Rússia e Índia se apropriam dessa identidade quando é conveniente.

Os autores não sugerem que o Brasil simplesmente imite a Austrália. A ideia central é que a autonomia tem um custo. Diversificar mercados, manter a capacidade industrial e evitar dependências requer investimentos financeiros e sacrifícios políticos no presente. Ignorar essas decisões também pode acarretar custos. Quanto maior a dependência, menor a liberdade do país para discordar dos interesses do parceiro quando eles se chocam.

Talvez a reflexão mais provocativa que surge dessa comparação seja não apenas a medida da dependência de Brasil e Austrália em relação à China, mas até que ponto cada um está disposto e tem condições de pagar para ter a liberdade de dizer não a Pequim.

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