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Galípolo: Não se pode celebrar a expansão do crédito e ao mesmo tempo lamentar o endividamento

O presidente do Central, Gabriel Galípolo, atribuiu o endividamento recorde das famílias brasileiras à concessão de crédito pelas instituições financeiras e ao uso pouco consciente de produtos financeiros, consequência do aumento da inclusão bancária, especialmente entre os cidadãos de baixa renda, notável após a pandemia e o uso difuso do Pix.

“É necessário esclarecer algumas evidências. Não faz sentido comemorar o crescimento do crédito e, em seguida, lamentar o aumento do endividamento. O crédito oferecido pelos bancos se traduz na dívida de quem o contrai. Portanto, a principal causa do endividamento é a própria dívida”, afirmou Galípolo durante a abertura da Febraban Tech 2026, realizada em São Paulo nesta segunda-feira (24).

Em maio de 2026, a renda disponível das famílias alcançou R$ 822 bilhões, o que representa o maior valor da série histórica, enquanto a taxa de desemprego caiu para 5,4%, próximo ao mínimo já registrado no Brasil. Apesar disso, o endividamento familiar subiu para 49,8% da renda anual, alcançando um recorde, e a metric excluindo o crédito imobiliário foi a 31,1%, caracterizando um cenário “dissonante”, segundo o banqueiro.

Galípolo enfatizou que o Brasil vivenciou uma inclusão bancária sem precedentes, particularmente entre os mais pobres, resultando em uma expansão significativa do crédito, mas através de uma utilização nem sempre responsável dos produtos financeiros.

Ele ressaltou a importância do uso consciente desses serviços: “A inclusão financeira já se concretizou. Agora, é fundamental que as pessoas aprendam a utilizar os produtos de forma responsável e identifiquem qual é a opção mais adequada para suas necessidades.”

Para abordar essa questão, o Banco Central está focado em regular o ambiente competitivo das instituições financeiras, assegurando que estas saibam diferenciar adequadamente o que representa um prêmio e o que é risco em suas carteiras de crédito. “É crucial garantir um campo de atuação equilibrado para que nenhuma empresa obtenha vantagens no mercado em desacordo com as melhores práticas de governança”, explicou Galípolo.

Ele destacou que nem todo endividamento é problemático, ao diferenciar entre dívidas que contribuem para a aquisição de ativos e aquelas que estão relacionadas ao consumo. “Contratar um financiamento para a compra de um imóvel é um investimento em um ativo. O problema reside em contrair dívidas vinculadas ao consumo momentâneo”, declarou.

O banco central mostrou preocupação com as linhas de crédito sem garantia, mencionando o cartão de crédito como um dos produtos mais preocupantes. Há atualmente 96 milhões de usuários desse serviço, sendo que mais da metade está endividada, com dívidas sujeitas a juros, seja no sistema rotativo ou no parcelamento.

Em média, 54% da renda desses usuários já estava comprometida com despesas relacionadas ao cartão. Além disso, as taxas de juros continuam elevadas, com o rotativo alcançando 15,1% ao mês e o parcelamento com juros a 9,3% ao mês. Os produtos de crédito livre, como o consignado privado e o crédito pessoal não consignado, também foram identificados como contribuintes para a elevação da taxa de endividamento.

O crédito consignado privado cresceu 145% em um ano, totalizando R$ 102 bilhões, enquanto o crédito pessoal não consignado subiu 188% desde 2020, somando R$ 397,2 bilhões. Entre 2020 e 2024, a expansão foi de 20% ao ano, e de 10,5% entre 2025 e 2026. No crédito pessoal sem garantia, os juros atingem 149,5% ao ano; para o consignado privado, a taxa média saltou de 40,9% para 57% ao ano entre fevereiro de 2025 e março de 2026.

“Essa discrepância de dados reflete a situação que observamos: renda elevada, desemprego em baixa, e ao mesmo tempo, endividamento elevado e crescente inadimplência”, concluiu Galípolo.

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