domingo, novembro 8, 2026
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Como Marcelo Coelho Conquistou Seu Apelido

Na vida, existem nomes que escolhemos e aqueles que nos são dados. Frequentemente, os que nos são atribuídos são os que mais permanecem.

A aceitação em minha primeira banda ocorreu de uma maneira bastante direta: participei de um show, onde toquei apenas duas músicas. Não houve qualquer tipo de formalidade, como um aperto de mão, mas fui convidado a continuar junto nos encontros da próxima semana.

Na época, eu tinha apenas dezesseis anos, sendo o mais jovem do grupo, sem ainda ter atingido a maioridade, ao contrário dos outros, que trabalhavam durante o dia e ensaiavam à noite.

No princípio, não fazia parte dos meus planos me apresentar nos fins de semana. Minhas prioridades eram beirar o simples: praia, amigos, festas de sábado e os encontros habituais. Não imaginava que duas músicas me custariam tantos sábados.

Com o passar do tempo, comecei a viajar com a banda, passando de cidade em cidade, indo de baile em baile. Sem perceber, descobri uma nova forma de pertencer ao mundo, que, de forma surpreendente, me proporcionava felicidade.

Eu e meu saxofone viajávamos como crianças no banco traseiro de um carro: quietos, abraçados ao brinquedo e observados por todos. Assim, me deram o apelido de Marcelo Bebê.

Não me recordo de ter protestado contra o apelido. Na adolescência, essa é uma espécie de identificação: ou você aceita, ou fica à margem. Um ano se passou rapidamente e é interessante o que nossa memória decide reter.

Recordo-me do momento em que soube que tocaríamos na festa de réveillon em Anchieta, no litoral do Espírito Santo. Fui informado de que nossa banda seria a atração principal e que estaríamos no palco durante a contagem regressiva. Minha ansiedade era palpável, pois era um show relevante, onde um erro poderia ser notado pela audiência.

O evento transcorreu bem, mas algo naquela noite ficou gravado em minha memória. O apresentador, um homem simpático de meia-idade, se mantinha com o microfone em destaque, mesmo ao espirrar. Ele intercalava comentários à música, agradando os presentes, comerciantes e políticos da região. Essas situações, toleradas quando necessárias, são rapidamente esquecidas após o término.

Porém, um particular se destacou: durante um solo meu, o apresentador notou, pela primeira vez, um adolescente segurando um instrumento que lembrava um cachimbo de prata. Com o microfone em mãos, ele comentou: “E olha láaaa… no saxoNfona… ele, o menino…”.

Após isso, ele parou, dirigiu-se ao lado e perguntou meu nome a um dos membros da banda. Voltou ao microfone e anunciou, em um tom bem alto: “O menino do saxoNfona… é ele… Marcelo… Marcelo BAMBAAAAAM!!! Aplausos pro BAMBAAAAMMM…”.

Naquele instante, a banda realmente parou.

O baterista perdeu o ritmo, o vocalista não conseguiu seguir com a música, o tecladista deixou um copo de cerveja cair sobre o teclado, e o guitarrista se dobrou de rir. O baixista, que havia me batizado, olhava para mim com a expressão de quem percebeu que o nome de ‘Marcelo Bebê’ havia sido transformado pelo apresentador, possivelmente influenciado pelo álcool.

E eu?

Fiquei estático no palco, segurando meu saxofone prateado. A cena deve ter lembrado o personagem Bambam, dos Flintstones, mas sem a força e a escolha.

Talvez o baixista tenha falado baixo demais. Talvez o som da música estivesse alto. Ou talvez o apresentador tenha simplesmente ouvido o que quis.

Compreendi, ao longo do tempo, que as palavras das crianças geralmente não pedem licença e as dos embriagados também não.

O ‘Bebê’ pereceu ali, ao vivo, em meio a um refrão, enquanto o ‘Bambam’ se estabeleceu de forma desconcertante. Ninguém corrige o que não possui um autor.

Depois de um ano, deixei a banda e me mudei para outra cidade e estado em busca de estudar música na universidade. Lá, em um ambiente distante, nem mesmo os professores sabiam meu nome; eu era apenas “Bambam”.

Anos depois, percebi que os apelidos não nos pertencem verdadeiramente. São dados por outros, que se esquecem de retomar. Carregamos esses nomes sem notar o peso enquanto permanecem presentes e a leveza quando desaparecem. De vez em quando, somos pegos de surpresa quando alguém nos chama por aquele nome e, por um breve momento, o tempo parece trazer de volta alguém que já fomos.

Atualmente, ao ouvir alguém me chamar de “Bambam”, sinto uma nostalgia amena. Reconheço que essa pessoa foi parte de uma fase em que ainda estava moldando meu caminho como músico, procurando as notas que futuramente dariam vida a alguma composição ou improvisação.

Do ‘Bebê’, nada sobrou. Quanto ao ‘Bambam’, sei que ainda responde quando chamado. E o menino do saxofone? Este continua sua jornada por outros palcos, em busca de novas notas para suas próximas improvisações.

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