Embora 80% dos brasileiros jovens, na faixa etária de 18 a 30 anos, expressem preocupação com sua situação financeira futura, apenas 34% realmente implementam medidas práticas para se preparar. Essa discrepância entre o que se pensa e o que se faz demonstra um desafio significativo para aqueles que estão iniciando sua trajetória de construção de patrimônio e planejamento para a aposentadoria.
Os dados são provenientes de uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva e mostram que 65% dos jovens têm pouco ou nenhum conhecimento sobre previdência privada. Além disso, 60% deles fazem escolhas financeiras considerando apenas o curto prazo, de no máximo seis meses.
Por outro lado, uma parte significativa, 65%, acredita que a preparação para a aposentadoria deve iniciar antes dos 30 anos. Para Erika Almeida, assessora financeira e membro do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo, essa disparidade entre preocupação e ação deve-se a fatores comportamentais e econômicos.
“Preocupar-se custa pouco, enquanto agir exige abrir mão do consumo atual em prol de um benefício que parece distante e incerto”, afirma Erika.
Quando se trata de estratégias de organização financeira, o analista de alocação Antônio Sanches sugere que os jovens endividados comecem por um diagnóstico detalhado de suas finanças, incluindo a análise de receitas, despesas, dívidas e taxas de juros das obrigações.
A principal prioridade deve ser a quitação ou a renegociação daquelas dívidas que apresentam juros elevados, como as do cartão de crédito no sistema rotativo e do cheque especial. Em seguida, é aconselhável identificar gastos que podem ser cortados e começar a formação de uma reserva para emergências.
Eliminar desperdícios não significa comprometer a qualidade de vida, mas sim evitar a perda desnecessária de recursos, enfatiza Sanches, citando como exemplos despesas com aplicativos de entrega e a manutenção de um estilo de vida que não se alinha à renda disponível.
Erika Almeida aponta uma ordem de prioridades que pode ser seguida:
1. Criar uma reserva inicial que corresponda a um ou dois meses de despesas;
2. Quitar dívidas com juros altos;
3. Expandir essa reserva para cobrir de três a seis meses de gastos essenciais;
4. Manter até 12 meses de reserva em caso de renda variável;
5. Investir regularmente, incluindo para a aposentadoria, conforme o perfil e os objetivos da pessoa.
Ela destaca que essa sequência pode ser ajustada em situações particulares. Se um plano de previdência complementar for oferecido pela empresa, a assessora recomenda que o benefício seja iniciado o quanto antes.
Sanches ressalta a importância de não direcionar todos os investimentos para aplicações de longo prazo, deixando de lado objetivos mais imediatos, como a compra de um veículo ou a entrada em um imóvel. Cada meta requer um tipo de aplicação que respeite seu prazo e risco.
Para metas de curto prazo, que variam entre seis meses e dois anos, recomenda-se buscar investimentos que ofereçam alta liquidez e baixo risco. Já para objetivos de médio prazo, cerca de cinco anos, pode-se considerar investimentos em títulos de renda fixa, tanto prefixados quanto atrelados à inflação. No horizonte de longo prazo, opções com maior volatilidade, como ações, fundos imobiliários e previdência privada, tornam-se mais adequadas.
“O investidor precisa compreender como cada tipo de investimento funciona para selecionar a ferramenta mais apropriada para cada meta de vida”, enfatiza Sanches.
Antes de decidir onde aplicar, ele recomenda avaliar três aspectos: liquidez, segurança e rentabilidade esperada, ressaltando que é raro encontrar um investimento que ofereça simultaneamente baixo risco, liquidez imediata e altos retornos.
Para aplicações em Certificados de Depósito Bancário (CDBs), Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), os investidores devem verificar a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que oferece cobertura de até R$ 250 mil por CPF e instituição. Por outro lado, ações não têm essa garantia, pois envolvem riscos associados à participação na atividade empresarial.
Uma simulação realizada pela Rico comparou dois investidores que aplicaram o mesmo valor total ao longo de 30 anos, com um rendimento mensal de 1%. Aquele que investiu R$ 200 mensalmente acumulou um total de R$ 705.982,75, enquanto o que investiu R$ 4.800 a cada dois anos alcançou R$ 628.938,19.
Ambos investiram R$ 72 mil no período. A diferença de R$ 84.044,57, que representa 13,5%, deve-se ao fato de que os aportes mensais permaneceram rendendo juros compostos por mais tempo. Essa demonstração evidencia que a regularidade nos investimentos pode gerar resultados mais expressivos, mesmo quando o montante total aplicado é igual. Vale destacar que essa simulação não considerou inflação, impostos ou variações na rentabilidade.
Outro cálculo revelou as consequências de adiar o início dos investimentos. Ao considerar uma estratégia de R$ 200 por mês e um rendimento de 1% ao mês, seria possível acumular R$ 705.983 em 30 anos, mas, ao postergar o início por cinco anos, o patrimônio estimado após 25 anos seria reduzido a R$ 379.527.
Para Erika Almeida, o foco antes dos 30 anos não precisa ser em investir grandes quantias, mas em criar o hábito de reservar uma parte da renda. “O primeiro aporte pode ser simbólico, desde que seja constante e aumente junto com a renda”, ressalta.
Quem ainda não consegue reservar mensalmente pode usar receitas extraordinárias, como 13º salário, restituição do Imposto de Renda, adicional de férias ou renda extra, para a reserva de emergência. Sanches recomenda também a automatização das transferências para o dia do recebimento do salário, evitando assim gastos impulsivos.

