Os sinais de diminuição nos índices de preços oferecem um alívio temporário aos consumidores, enquanto o mercado reagiu positivamente à deflação de 0,40% registrada no IPCA-15, que é uma prévia da inflação oficial. Entretanto, economistas alertam para a natureza passageira desse alívio, impulsionado pelo bônus de Itaipu nas tarifas de energia elétrica. Existe uma preocupação sobre a possibilidade de agravamento futuro, o que poderia não apenas dificultar a redução da taxa de juros, mas também abrir caminho para um quadro de estagflação, caracterizado por preços elevados e uma economia fraca.
O economista sênior e especialista em inflação alertou que não se pode avançar na análise sem considerar que a inflação pode ser contida temporariamente. Ele previu um aumento significativo nas taxas em setembro, cujos dados serão disponibilizados no início de outubro. Outro economista destacou que a queda observada no IPCA de agosto é circunstancial, resultante da devolução do bônus de energia e de um período favorável para os produtos agrícolas, sem que essa tendência se repita nos próximos meses. As projeções da consultoria situam a inflação em 5,3% para 2026 e 4,2% para 2027.
Um processo consistente de redução da inflação requer um esfriamento mais amplo da economia, algo que ainda não se manifestou, de acordo com as análises. O especialista mencionou que o Brasil ainda atravessa um período de desaceleração do consumo, necessário para que a inflação caia e a taxa de juros siga uma trajetória de queda mais acentuada.
No que diz respeito à alimentação, a situação continua complicada, principalmente devido ao impacto da pandemia. Apesar das deflações pontuais em julho e agosto, o custo dos alimentos permanece elevado, consumindo uma parcela significativa da renda das famílias. Um especialista reforçou que não são as reduções temporárias que vão alterar a percepção do consumidor sobre o aumento dos preços.
Os próximos meses trazem como principal desafio para a alimentação a influência do fenômeno El Niño, que poderá afetar a produção agrícola no final deste ano e no início de 2027, tornando a desaceleração do IPCA ainda mais difícil. A consultoria prevê uma inflação de 5,1% para 2026 e 4,5% para 2027, enquanto os serviços também apresentam resistência, com um aumento significativo de 6,01% em 2025. A revisão da expectativa para o segmento neste ano é de 5,1%, um nível que permanece desconfortável para o Banco Central.
A pressão externa se destaca, particularmente em relação ao petróleo. Com os preços do Brent em US$ 95 por barril, os custos de produção e transporte internos estão elevando, e especialistas apontam que existem limites para que o governo consiga controlar esses repasses nos preços dos combustíveis, especialmente em meio a crises geopolíticas.
Além disso, as subvenções temporárias podem não ser suficientes para impedir efeitos indiretos nas cadeias produtivas, afetando transporte e fertilizantes, o que leva o Banco Central a prestar atenção nas flutuações tanto do petróleo quanto da moeda estrangeira. O risco imediato é que um choque externo possa comprometer os esforços internos de controle dos preços. Um possível agravamento no conflito entre os Estados Unidos e o Irã poderia elevar os preços do petróleo e impactar o câmbio, resultando em uma inflação crescente, mesmo diante de um cenário de atividade econômica desaquecida.
A questão fiscal também representa um fator de pressão considerável. Para especialistas, a falta de uma âncora fiscal confiável é o principal impedimento à consolidação da inflação ao longo prazo, já que a percepção de risco de inadimplência continua a pressionar as taxas de juros. Com a dívida bruta do governo federal ultrapassando 95% e com gastos superando as receitas desde 2023, a situação se torna crítica.
Essa fragilidade, associada a uma inflação persistente próxima ao teto da meta, de 3% com uma tolerância de 1,5 ponto percentual, aumenta as chances de que a política monetária perca eficácia. Cada aumento de 1 ponto percentual na Selic gera um custo extra de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões ao encargo da dívida. A solução apresentada enfatiza a necessidade de um rigoroso controle fiscal. Sem ajustes focados nas despesas obrigatórias, um tema evitado pelos principais candidatos por razões eleitorais, o Brasil corre o risco de um crescimento econômico mais baixo em 2027, com inflação elevada.
