A incerteza em torno do resultado das urnas torna a previsão de cenários para 2027 e os anos subsequentes um desafio. Até o momento em que este artigo é escrito, é arriscado tentar adivinhar quem saíra vitorioso nas eleições, que se configuram como uma das mais acirradas e polarizadas na história recente do Brasil.
É alarmante notar a ausência de um debate sólido sobre uma agenda futura. Independentemente do vencedor, a perspectiva é que 2027 será um ano complicado. As propostas apresentadas pelos candidatos sugerem que o ano não será de ajustes necessários, especialmente quando tais medidas são cruciais para o futuro.
Na corrida eleitoral, as promessas proliferam em meio a uma variedade de promessas de melhorias. Os candidatos falam desde aprimorar o Sistema Único de Saúde a um nível comparável ao de hospitais de renome, até criar passe livre nos transportes públicos aos finais de semana. Além disso, há intenções de expandir o Bolsa Família e facilitar ainda mais um sistema previdenciário que já enfrenta sérias dificuldades de sustentabilidade.
Essas promessas incluem também a perspectiva de juros baixos e o perdão de dívidas, como se a vontade política fosse suficiente para torná-las viáveis. No entanto, muitas dessas propostas parecem divorciadas da realidade econômica, ignorando tanto as limitações atuais quanto a persistência dos problemas acumulados ao longo do tempo.
Um exemplo claro disso é a busca por juros mais baixos. Embora todos desejem reduções, alcançar essa meta de forma sustentada requer credibilidade fiscal, expectativa de inflação controlada e um equilíbrio nas contas públicas. A questão do ajuste fiscal, fundamental para a estabilidade econômica, não está claramente presente nas propostas dos candidatos. A ilusão de que a redução das taxas de juros poderá ocorrer sem a devida atenção aos desequilíbrios fiscais é, no mínimo, irrealista.
Felizmente, o Brasil conta com um Banco Central autônomo, que se baseia em princípios de política monetária que priorizam a estabilidade de preços. No entanto, acreditar que o crescimento econômico resolverá automaticamente os problemas fiscais é uma visão excessivamente otimista. Embora as taxas de crescimento possam aumentar a arrecadação, elas não substituem a necessidade de reformas que limitem a expansão das despesas e melhorem a qualidade do gasto público.
Não precisamos de previsões complexas para perceber as dificuldades à frente. A segunda-feira após as eleições marcará o início de uma reavaliação das expectativas do mercado financeiro. Dependendo do resultado das votações, poderemos observar uma reação de alta ou de baixa no mercado, alinhada com a percepção sobre as futuras diretrizes econômicas.
Atualmente, certos segmentos do mercado acreditam que uma vitória de Lula pode levar a uma reação inicial negativa, enquanto uma vitória de Flávio Bolsonaro poderia resultar em um aumento no valor dos ativos. Porém, esses movimentos não são automáticos; sua magnitude e duração dependerão das diretrizes econômicas, da formação das equipes de governo e da situação do mercado.
Normalmente, essas dinâmicas de realocação de ativos são mais intensas no início e tendem a se estabilizar à medida que novas informações ajudam a formar expectativas mais concretas. À medida que as expectativas dos agentes econômicos — negócios, investidores e consumidores — são moldadas pelo cotidiano, é provável que enfrentemos, pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, um período de maior instabilidade e cautela.
No decorrer deste intervalo, se tornará evidente a discrepância entre as promessas de campanha e a viabilidade de sua implementação. Algumas propostas poderão mostrar-se inviáveis, outras perderão prioridade devido a restrições orçamentárias, e algumas precisarão ser reavaliadas. Para muitos, será uma descoberta que a realidade econômica impõe limites mais rigorosos do que os que foram aceitos durante a campanha eleitoral. Esta pode ser a grande dificuldade que nos aguardará em 2027: um país necessitando de ajustes, mas cujas promessas eleitorais sugerem, em grande parte, um aumento dos gastos públicos.

