Chegar aos 60, 70, 80 ou até 90 anos não implica o abandono de sonhos. Pelo contrário, para muitos idosos, essa etapa se revela uma oportunidade para iniciar novos projetos, explorar interesses e concretizar desejos que ficaram em segundo plano.
No mês em que é celebrado o Dia Internacional da Pessoa Idosa, é possível encontrar narrativas que demonstram que nunca se é “velho demais” para realizar algo.
Um exemplo é o casal Rita e Luiz Polese, de 74 anos, que, juntos há mais de 50 anos, decidiram investir em novos conhecimentos na terceira idade. Rita, que sempre teve uma paixão pela música, voltou a estudar violão e começou a aprender a tocar piano. Juntos, eles optaram por aprender italiano, uma língua conectada às raízes familiares.
“A gente não para. Temos muita vontade de aprender e sentimos que podemos contribuir para melhorar o nosso entorno”, afirma Rita.
Além de se envolver em causas sociais e atividades de caridade, o casal mantém uma vida ativa com academia, pilates, viagens, exposições, concertos e encontros com amigos.
“Não conseguimos ficar parados. Participar dessas atividades nos faz bem, exercitando nossa memória, conhecendo novas pessoas e fazendo o que gostamos”, completa Luiz.
Essa transformação na vida dos aposentados reflete o aumento da expectativa de vida no Brasil, que saltou de 45,5 anos em 1940 para 76,6 anos em 2024.
Conforme projeções, em 2026, no Espírito Santo, 731.351 pessoas terão 60 anos ou mais, sendo 328.093 homens e 403.258 mulheres. Para o geriatra Roni Mukamal, o aumento da longevidade destaca a importância de manter interesses e uma rotina ativa na velhice.
Quando alguém se propõe a aprender um novo idioma ou instrumento, por exemplo, ativa suas habilidades cognitivas e emocionais. Já a psicóloga Naira Delboni ressalta que esta fase pode ser uma chance de redescobrir a própria identidade.
Muitas vezes, as pessoas constroem sua identidade em torno de papéis como trabalho ou maternidade. Quando esses papéis mudam, novos interesses podem emergir.
A psicóloga destaca que aprender algo novo após os 60 anos pode melhorar a autoestima, aumentar a autonomia e proporcionar confiança para lidar com desafios diários. Ao se permitir experiências novas, o indivíduo reconhece suas conquistas e fortalece sua autoconfiança.
Essas experiências também promovem benefícios cognitivos, como o estímulo à atenção e memória, e contribuem para a chamada reserva cognitiva. A Organização Mundial da Saúde menciona que a educação continuada e a atividade mental podem prevenir sintomas depressivos e aumentar a sensação de utilidade entre os idosos.
A psicóloga Ana Carolina Maffazioli complementa que, enquanto algumas habilidades físicas tendem a diminuir com o passar do tempo, é possível continuar desenvolvendo capacidades emocionais durante a vida.
Mudar de profissão ou iniciar uma nova carreira após os 60 anos tem se tornado realidade para um número crescente de pessoas. Airton Machado, de 63 anos, por exemplo, é um farmacêutico que decidiu abrir uma cafeteria em Jardim Camburi, em Vitória, após perder o emprego em 2019.
A ideia de empreender surgiu quando ele percebeu que não poderia ficar sem fazer nada. Com experiência anterior no comércio, ele decidiu investir em uma franquia de café especial e passou a realizar cursos de barista e de diferentes métodos de preparo.
Agora, Airton afirma que a vida como empreendedor é desafiadora, mas traz satisfação ao ver o crescimento do negócio e a alegria dos clientes.
Cada vez mais pessoas acima dos 60 anos também estão permanecendo ou retornando ao mercado de trabalho. Um levantamento indica um crescimento de 68,9% na participação dessa faixa etária no mercado.
Embora muitas pessoas mais velhas enfrentem o receio de recomeçar, é importante incentivá-las a aprender coisas novas e promover sua independência. A psicóloga Naira Delboni enfatiza que essa fase da vida oferece novas possibilidades, e envelhecer não deve ser sinônimo de desistir de planos. Reconhecer que se tem sabedoria para escolher novos caminhos é essencial.
Ter uma vida ativa após os 60 anos não apenas promove benefícios físicos, mas também amplia os vínculos sociais e ajuda a mitigar o isolamento. Essa preocupação é ainda mais relevante considerando que muitos idosos vivem sozinhos. Dados recentes mostram que cerca de 28,7% dessa população reside sozinha.
Mudanças na rotina, na família e no trabalho podem diminuir o contato social, tornando essencial o desenvolvimento de novas habilidades e interações. A falta dessa disposição pode resultar em isolamento social, que é prejudicial à saúde.
Adotar uma vida ativa também traz benefícios cognitivos, fortalece a autoestima, ajuda na redescoberta da identidade e estabelece novos propósitos. Projetos menores, como esportes, cursos ou hobbies, podem proporcionar uma nova perspectiva na rotina.
Fazer atividades em grupo favorece novas amizades e participação comunitária, combatendo a solidão. Iniciar a prática de exercícios mesmo em idades avançadas contribui para preservar a força muscular e a mobilidade, essenciais para a qualidade de vida.
Por fim, ao escolher atividades que despertam interesse pessoal, os idosos podem continuar a tomar decisões sobre suas vidas, promovendo autonomia e bem-estar emocional. As novas experiências frequentemente trazem satisfação e um sentido renovado para a rotina. O envelhecimento pode exigir algumas adaptações, mas não limita a capacidade de aprender e explorar novas áreas de interesse.

