As transformações que aumentam o risco de doenças cardíacas em mulheres iniciam antes da menopausa. Durante a perimenopausa, fase que precede a última menstruação, o organismo apresenta sinais sutis que indicam maior vulnerabilidade, como aumento da gordura abdominal, piora nos níveis de colesterol e ligeira elevação da pressão arterial.
A importância do tema é ressaltada no Dia Mundial do Coração, celebrado em 29 de setembro, com novas descobertas sobre as doenças cardiovasculares que afetam o corpo feminino.
Um posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia registra que as doenças cardiometabólicas em mulheres são frequentemente subdiagnosticadas e tratadas inadequadamente. No Brasil, as doenças cardiovasculares figuram como a principal causa de morte entre mulheres, superando os cânceres, conforme dados do Ministério da Saúde.
Os sintomas de infarto, por exemplo, costumam se manifestar de forma distinta nas mulheres em comparação aos homens. Em vez da típica dor no peito irradiando para o braço, podem surgir dores estomacais, náuseas, extrema fadiga e sudorese intensa, frequentemente confundidas com problemas gástricos ou crises de ansiedade.
Uma pesquisa realizada pela PUC do Paraná confirma um maior risco de mortalidade pós-infarto entre mulheres de 45 a 55 anos em relação aos homens da mesma faixa etária.
A relação entre o risco cardiovascular e a menopausa, que é definida claramente após 12 meses sem menstruação, é frequentemente discutida. Contudo, as alterações que contribuem para esse risco começam na perimenopausa, como explica um especialista. O estrogênio, hormônio que regula a saúde vascular, a distribuição de gordura e o metabolismo do colesterol nas mulheres, tem sua produção alterada durante essa fase, resultando em mudanças no colesterol, que por sua vez podem favorecer o ganho de peso e a acumulação de gordura abdominal, aumentando o risco cardiovascular.
Os níveis de colesterol comprometidos podem criar placas nas artérias, cujos efeitos podem levar anos para se manifestar. Embora alterações de peso sejam discretas, com um ganho de cerca de 500 a 600 gramas anualmente, é importante que esses sinais não sejam ignorados, pois podem preceder riscos como obesidade e hipertensão.
Os sintomas cardíacos tendem a ser consistentes entre as mulheres. Desconforto ou dor no peito são os mais comuns, mas também é possível que elas sintam falta de ar, náuseas, cansaço excessivo e desconfortos na região das costas ou mandíbula.
Durante a perimenopausa, a presença de palpitações, ondas de calor e distúrbios do sono pode dificultar a identificação dos sintomas cardíacos. Por isso, um novo sintoma intenso ou persistente deve ser cuidadosamente avaliado e não simplesmente atribuído às flutuações hormonais.
O reconhecimento da transição hormonal nem sempre é claro. As alterações no ciclo menstrual, que sinalizam a perimenopausa, podem começar entre os 40 e 45 anos, enquanto a menopausa ocorre, em média, aos 50. Ao redor dos 45 anos, o ciclo menstrual pode ter variações, ocorrendo intervalos de até 60 dias entre as menstruações.
Adicionalmente, alterações como irritabilidade, oscilações de humor, ondas de calor, sudorese noturna e dificuldade para dormir são comuns. Muitas mulheres relatam um sentimento de desconexão com suas próprias emoções, expressando que “não se sentem como elas mesmas”.
O acompanhamento da saúde é crucial nessa fase. Conhecer os próprios índices, como pressão arterial, níveis de colesterol, glicemia e circunferência abdominal, é essencial. A prática regular de atividades físicas, uma alimentação equilibrada, sono adequado e a cessação do tabagismo são fatores comprovados na redução de riscos. Mulheres que tiveram pré-eclâmpsia, diabetes gestacional ou menopausa precoce devem informar seus médicos, pois esses antecedentes podem influenciar na avaliação do risco de doenças cardíacas.
A saúde do coração é um processo que se constrói ao longo da vida. Mesmo quem não possui hábitos saudáveis pode realizar mudanças. Diminuir o consumo de alimentos ultraprocessados e priorizar gorduras saudáveis, frutas e alimentos ricos em cálcio traz benefícios. Também é recomendada a prática de musculação, caminhadas rápidas e corridas leves para promover a saúde óssea nesta fase.
Em relação aos exames, o eletrocardiograma, ecocardiograma, teste ergométrico e exames para avaliação das coronárias não são rotina obrigatória para todas as mulheres na perimenopausa. A necessidade desses exames depende dos sintomas, exames clínicos e estimativas de risco. As consultas devem considerar o ciclo menstrual, hábitos de vida, histórico familiar, gestação, bem como perfil lipídico e glicêmico.
A partir dos 40 anos, mulheres devem incluir em sua rotina a mamografia anual, avaliação de colesterol e suas frações, glicemia em jejum e hormônios da tireoide. O risco de disfunção tireoidiana aumenta cerca de 20% nessa fase. A densitometria óssea pode ser solicitada a depender do histórico de riscos.
A terapia hormonal deve ser prescrita com cautela e não apenas para prevenção de infartos ou AVC. O tratamento para os sintomas da menopausa deve ser feito com avaliação individual. Não é preciso aguardar 12 meses sem menstruação para iniciar a reposição hormonal, que pode começar na perimenopausa se os exames estiverem adequados e não houver contraindicações.
As mulheres devem estar atentas aos sinais de alerta, que são consistentes em qualquer fase da vida. Sensações como pressão, aperto ou desconforto no peito, especialmente se persistentes ou associados a esforços, bem como falta de ar, sudorese, náuseas, desmaios ou dores que irradiam para os braços, costas, pescoço ou mandíbula, podem sinalizar problemas cardíacos.
Em caso de sintomas intensos ou súbitos, é imperativo buscar atendimento de emergência imediatamente.


