Na terça-feira, 22 de setembro, os Estados Unidos firmaram um acordo com Dinamarca e Groenlândia sobre o futuro do território ártico dinamarquês, que tinha sido objeto de interesse por parte de Donald Trump. Embora o presidente americano tenha celebrado a assinatura do pacto, ele não obteve sucesso em sua intenção de adquirir a ilha.
O evento ocorreu após Trump discursar na Assembleia Geral da ONU, onde ele declarou que os groenlandeses manifestaram o desejo de receber proteção americana, que poderia se concretizar na forma de duas novas bases militares na região.
Atualmente, os EUA operam a Base Espacial de Pituffik, localizada no norte da Groenlândia, e o novo acordo permitirá que o país amplie sua presença na ilha, incluindo o uso de duas instalações que foram ativadas durante a Guerra Fria: o aeródromo de Narsarsuaq e Mestersvig, onde está posicionada uma força dinamarquesa que realiza patrulhas com trenós puxados por cães.
O texto do acordo, previamente anunciado na sexta-feira, dia 18, especifica que os EUA terão a liberdade de estabelecer áreas adicionais para defesa e aumentar suas operações e infraestrutura. Na prática, as condições são semelhantes às que vigoram desde um acordo estabelecido em 1951, que permitiu a presença de 17 bases americanas na Groenlândia durante o período da Guerra Fria.
Adicionalmente, o pacto proíbe a presença militar de qualquer nação que não pertença à Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, com a intenção de limitar a influência de Rússia e China na região, visto que a Dinamarca também é membro do grupo.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, saiu fortalecida do acordo, que reafirma a soberania de seu país e o direito de autodeterminação do povo groenlandês, que vive sob um regime de autonomia controlado pela Dinamarca.
Trump foi ao evento de Nova York, onde considerou a negociação um triunfo estratégico, embora longe das expectativas que alimentou ao longo de seu segundo mandato.
O premiê da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, também elogiou o acordo, reforçando a importância da parceria entre os EUA e a Otan, e enfatizando que a segurança da aliança é vital para a segurança da Groenlândia.
A disputa pelo território começou antes mesmo de Trump assumir o cargo pela segunda vez, em janeiro de 2025. O presidente americano manifestou repetidamente seu interesse em ter controle sobre a Groenlândia, um desejo que foi levantado durante seu primeiro mandato em 2019.
Com sua abordagem conhecida de negociação, Trump combinou sugestões de ocupação militar com propostas para a compra da ilha, uma demanda que foi reiterada durante a cúpula da Otan em julho.
Nenhuma das abordagens de Trump resultou em resultados imediatos, mas o novo acordo é um reflexo das negociações que ocorreram entre as partes, embora as versões sobre os termos do pacto ainda apresentem divergências.
O Ártico, de fato, está no centro de uma renovada tensão entre a Rússia e a Otan, e a Groenlândia, em particular, figura na lista de interesses dos EUA há muito tempo. Ao final do século XIX, houve especulações sobre a compra da ilha, e durante a Segunda Guerra Mundial, os EUA ocuparam o local após a conquista da Dinamarca pelos nazistas, evitando assim uma possível ameaça próxima.
Em 1946, os EUA tentaram novamente adquirir a Groenlândia, oferecendo o equivalente a 1,7 bilhões de dólares hoje, mas Copenhague recusou. No entanto, em 1951, foi firmado um acordo que permitiu a presença militar americana na ilha, estratégica para a proteção dos EUA, devido às rotas de mísseis nucleares potencialmente soviéticos e, atualmente, russos e chineses.
Além disso, a Groenlândia é importante para a segurança naval, pois sua costa monitora rotas usadas por submarinos e navios de guerra russos. A China também tem interesses comercialmente na região.
O Kremlin, em declaração feita na terça-feira, informou que acordos como o sobre a Groenlândia são assuntos que dizem respeito apenas aos envolvidos, evitando comentar sobre a movimentação militar em relação ao tratado, enquanto continua a debater negociações de paz na Ucrânia com Washington.
A Dinamarca, sendo parte da Otan, facilitava a negociação até o momento em que Trump assumiu. Durante a Guerra Fria, aproximadamente 10 mil soldados americanos estavam deslocados na ilha, que atualmente abriga 57 mil habitantes.
Trump, que também se mostrou interessado nos recursos minerais da Groenlândia, como terras raras, petróleo e ferro, enfrenta uma ironia: o derretimento do gelo causado pela mudança climática pode facilitar futuras explorações, hoje dificultadas, que ele mesmo desconsidera como injustificadas.


