A obesidade é uma condição crônica e multifatorial que afeta indivíduos de diversas idades e origens sociais em todo o mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, aproximadamente 650 milhões de pessoas convivem com essa doença.
O tratamento da obesidade pode incluir alterações no estilo de vida, como a melhoria da alimentação e a prática regular de exercícios físicos, além do uso de medicamentos. Os análogos de GLP-1, como a semaglutida (presente no Ozempic e no Wegovy) e a tirzepatida (encontrada no Mounjaro), surgiram recentemente como novas opções no combate à obesidade. Essas substâncias funcionam imitando a ação do hormônio intestinal GLP-1, que ajuda a reduzir o apetite e a retardar o esvaziamento do estômago, promovendo uma sensação de saciedade.
Um aspecto notável da tirzepatida é que, além de atuar como análoga ao GLP-1, ela também simula o GIP, um hormônio intestinal adicional. Isso resulta em um efeito mais poderoso sobre o metabolismo e o apetite. Contudo, a resposta ao medicamento pode variar de pessoa para pessoa. Pesquisadores da Mayo Clinic recentemente conduziram um estudo que pode lançar luz sobre esse fenômeno.
Neste estudo, foram avaliados 483 adultos com obesidade, identificando um grupo que os pesquisadores denominaram de “intestino faminto”. Esse perfil apresentou uma resposta mais significativa à tirzepatida, embora os autores tenham destacado que as conclusões ainda precisam ser verificadas em investigações mais amplas. O estudo foi publicado em uma renomada revista científica.
Os pesquisadores concentram-se em características como a velocidade de esvaziamento do estômago e os níveis de GLP-1 nos participantes. Assim, dividiu os indivíduos em três grupos, entre os quais se destacou o grupo “intestino faminto”, composto por 130 pessoas. Este grupo demonstrou um esvaziamento gástrico mais rápido, uma sensação de fome aumentada após as refeições e níveis de GLP-1 abaixo do esperado. Após 90 minutos da refeição, os níveis de GLP-1 foram aproximadamente 38% menores nessa categoria. Também foram observados níveis reduzidos de outros hormônios relacionados à saciedade, como PYY e CCK.
A resposta à tirzepatida foi analisada em uma subamostra de 61 participantes. Após seis meses de tratamento, os integrantes do grupo “intestino faminto” apresentaram uma perda média de 21,5% do peso corporal, enquanto os outros grupos tiveram reduções de 12,1% e 10,8%. Essa diferença já se manifestava após três meses de utilização do medicamento.
Segundo a especialista em endocrinologia, esse perfil pode ter um desempenho superior ao utilizar medicamentos como o Mounjaro, visto que esses fármacos ampliam e prolongam a sensação de saciedade.
Entretanto, a análise da resposta à tirzepatida possui limitações: dos 483 participantes, apenas 61 participaram dessa fase, e vale destacar que os pesquisadores avaliaram pessoas que já estavam em uso do medicamento, sem distribuição aleatória entre os grupos. Dessa forma, outros fatores podem ter impactado os resultados da perda de peso, tornando os achados ainda insuficientes para isolar o perfil como um preditor confiável de quem responderá melhor ao tratamento.
A concepção do “intestino faminto” indica que a obesidade pode manifestar-se em diferentes fenótipos, quais sejam as características que influenciam seus mecanismos subjacentes. Este perfil se caracteriza por uma maior dificuldade em alcançar a saciedade e em reconhecer o momento de interromper a ingestão de alimentos após as refeições.
Além do “intestino faminto”, existem outros fenótipos mencionados pela especialista, incluindo o comedor compulsivo, que tem dificuldade em controlar a quantidade de alimentos ingeridos, muitas vezes comendo mesmo sem sentir fome. Outro perfil é o de menor gasto energético, onde o organismo queima menos calorias ao longo do dia, o que facilita o aumento de peso e torna o emagrecimento mais difícil.
Identificar os distintos mecanismos envolvidos na obesidade é crucial para personalizar os tratamentos. Embora perfis como o “intestino faminto” possam auxiliar na escolha da terapia, não devem ser considerados de forma isolada. A especialista alerta que essas classificações podem guiar na definição do tratamento, mas não são absolutas, pois podem se mesclar dentro do mesmo paciente e variar ao longo do tempo.
A seleção do medicamento também leva em conta outros fatores, como a presença de diabetes, doenças associadas, tratamentos prévios, respostas anteriores e potenciais efeitos colaterais.
A personalização médica é um processo que envolve uma ampla gama de informações e avaliações clínicas para individualizar o tratamento medicamentoso de cada paciente.
