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América Latina, com Nicarágua e Chile, se rende a Trump – 22/08/2026 – Mundo

Diversos países manifestam apoio a Washington e atendem às demandas dos Estados Unidos. Outros, por sua vez, enfrentam sanções ou até intervenções militares para ajustarem-se às diretrizes da Casa Branca. Contudo, a América Latina compartilha uma prática comum: aceita e implementa, em diferentes intensidades, a agenda de Donald Trump na região.

Desde o seu retorno ao poder, em janeiro de 2025, o presidente republicano fez da América Latina uma prioridade nas políticas externas dos EUA. Essa abordagem tem sido realizada através de ações de pressão econômica contra opositores, pacotes de assistência financeira a aliados e até a ameaça de operações militares, como demonstrado em janeiro deste ano na Venezuela, onde ocorreu a primeira ação militar direta dos EUA no âmbito da América do Sul.

Se antes as intenções do governo americano eram nebulosas, elas se tornaram claras com a divulgação da Estratégia de Segurança Nacional em novembro passado.

“Após anos de negligência, os EUA reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental”, afirmou a Casa Branca no texto, referindo-se à política do século 19 que tem guiado as relações internacionais de Washington na maior parte do tempo desde então e resumida na expressão “América para os americanos”.

Juan Gabriel Tokatlian, professor de relações internacionais na Universidade Torcuato Di Tella, na Argentina, destaca que, historicamente, os EUA tiveram uma relação intermitente com a América Latina, frequentemente influenciada por fatores externos. Por exemplo, até 1959, a preocupação americana estava voltada para a influência soviética na Ásia e na Europa, até que a Revolução Cubana alterou essa dinâmica, dada sua proximidade geográfica. Os ataques de 11 de Setembro fizeram com que Washington se voltasse para o Oriente Médio.

Atualmente, a Casa Branca estabelece a América Latina novamente como uma prioridade.

O renovado interesse na região não é um fenômeno exclusivo de Trump, mas uma resposta também aos investimentos da China. Esse cenário ocasionou a saída gradual dos EUA dos principais conflitos em que estiveram envolvidos nos últimos anos, como os do Iraque e Afeganistão, conforme aponta o especialista.

A diferença neste novo contexto é que Trump possui uma oportunidade concreta de implementar diversas iniciativas que não conseguiu em seu primeiro mandato.

Ao deixar a presidência em 2021, os únicos representantes da ultradireita na região eram Jair Bolsonaro, no Brasil, e Nayib Bukele, em El Salvador. Desde seu retorno, ele observa um aumento no número de líderes alinhados a suas visões na América Latina, como Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile, Daniel Noboa no Equador, Abelardo de la Espriella na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru.

Esses países estão dispostos a ceder “por convite, não por imposição”, diz Tokatlian, evidenciando que esse conformismo é frequentemente motivado por perspectivas de benefícios, recursos ou assistência, como demonstrado pelo resgate financeiro dos EUA à Argentina, que impediu uma crise cambial iminente antes das eleições legislativas em outubro.

Existem ainda nações que se curvam ao poder dos EUA, como a Venezuela, que foi reconfigurada de uma considerada ameaça a uma espécie de “neoprotetorado”. Cuba, por outro lado, navega por uma das suas mais significativas reformas econômicas desde a revolução, em resposta ao bloqueio americano e à crise energética gerada por este.

O Brasil se insere entre os países que flutuam entre a defesa de sua soberania e as negociações com os EUA, enquanto o México tem sido ativo ao entregar líderes do narcotráfico aos americanos e deslocar tropas para a fronteira desde o retorno de Trump.

Até mesmo a Nicarágua, sob a liderança dos ditadores Daniel Ortega e Rosario Murillo, que frequentemente criticam o “imperialismo ianque”, continua sendo um colaborador nas deportações promovidas por Trump e atua como um “muro de contenção” contra o narcotráfico na América Central.

“Se a Nicarágua combater o tráfico de drogas e aceitar deportados, os EUA ficarão satisfeitos. A democracia não é uma prioridade para Washington, e não haverá consequências para Ortega, mesmo após sua afirmação de que não haverá mais eleições”, comenta Tokatlian.

Michael Shifter, pesquisador e ex-presidente do Inter-American Dialogue, acredita que Ortega tenta aproveitar a natureza transacional do presidente americano. “Não se discute mais a ideologia”, observa. O ditador percebe que Trump não valoriza excessivamente a situação dos direitos humanos, buscando assim negociar com Washington.

O Brasil se destaca como um país com autonomia para rejeitar demandas de Trump, ao contrário do México, que seria bastante dependente das relações com os EUA. Shifter observa que o impulso por autonomia no Brasil vai além do governo Lula, refletindo um sentimento de soberania entre as elites, inclusive nas correntes conservadoras, que impõem limites à subordinação a Washington.

Com relação aos países dispostos a se aliar aos EUA, o pesquisador vê essa escolha como arriscada. O histórico de intervenções militares unilaterais de Washington é mal visto na região e, caso persistam essas ações, Shifter prevê um sentimento crescente de ressentimento tanto em relação aos EUA quanto a governos locais vistos como subordinados à vontade americana. Isso pode resultar em um retrocesso nas relações entre a América Latina e os EUA por um longo período.

Essas movimentações podem abrir novas oportunidades para a China. Shifter menciona pesquisas que indicam uma deterioração na imagem dos EUA e um aumento na percepção favorável à China, especialmente entre os jovens. No caso do Peru, essa mudança é notavelmente intensa entre indivíduos de 18 a 35 anos. “Não é que todos amem a China; é porque as pessoas não estão satisfeitas com os EUA”, observa.

O pesquisador questiona também a classificação da política de Trump como uma nova Doutrina Monroe, enfatizando que, ao contrário da Guerra Fria, que buscava conter o comunismo, a atual estratégia parece ser uma tentativa de demonstrar poder e superioridade militar, ao mesmo tempo que visa afirmar o controle sobre o que consideram seu espaço vital.

“Não percebo uma estratégia sólida, nem coerência nas ações do governo Trump”, afirma Shifter, citando os ataques de embarcações acusadas de tráfico no Caribe. “O que importa é uma imagem de firmeza”, conclui, sublinhando que se trata de “um grande espetáculo”.

Juan Gabriel Tokatlian acredita, por sua vez, que o novo enfoque dos EUA na América Latina é uma mudança de longo prazo. “Se Trump conseguir firmar sua influência na região, um futuro governo democrata não estará disposto a abrir mão disso”, observa.

Ele complementa que tentativas futuras de um governo democrático de reverter essa dinâmica podem buscar promover alguma forma de consulta e ressaltar a necessidade de fortalecer a democracia, mas não vão além disso, uma vez que o desafio que os EUA enfrentam com a China na região reflete uma luta global.

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